cobertura eleição tvcom

A cobertura teve momentos ao vivo e reportagens nos colégios de Ponta Grossa e região que foram locais de votação. Na foto o apresentador William Clarindo entrevista a representante dos direitos humanos a OAB Kelly Rocha. Foto: Rafael Schoenherr.

 

Cinco horas de cobertura com produção ao vivo na TV Comunitária (canal 17), distribuídos com informações dos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Este é o resultado da cobertura feita pelos estudantes de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), no primeiro turno das eleições gerais, no domingo, 7 de outubro.

A cobertura realizada em parceria com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (SindiJorPR), Seção Sindical dos Docentes da UEPG (Sinduepg), Associação Avante Fantasma (AAFA), Rádio Princesa FM 87.9 e Sindicato dos Metalúrgicos de Ponta Grossa (SindMetal), contou com 34 estudantes distribuídos em 14 locais de votação.

A professora de Jornalismo Cíntia Xavier aponta que, em relação aos anos anteriores, a cobertura foi ampliada, atingindo TV, Rádio e Internet. “Conseguimos avançar na transmissão, abrindo espaço para mais gente acompanhar a produção”, afirma. Além da TV Comunitária, a cobertura se concentrou na Rádio Princesa (FM 87.9) e na página do Facebook do portal Periódico, do curso de Jornalismo da UEPG.

Isabela Aguiar, estudante de Jornalismo, avalia a experiência de participar da cobertura. “É uma experiência que vai acrescentar na minha vida acadêmica e profissional”, diz. A cobertura eleitoral iniciou às 8h e encerrou às 20h. Ao todo, foram momentos de produção com programação ao vivo na TV Com PG. “Nos preparamos durante 60 dias para que pudéssemos realizar todas essas transmissões”, explica a profesora Cíntia Xavier.

A cobertura das eleições em Ponta Grossa é um evento tradicional no calendário do curso de Jornalismo, que teve a primeira atividade na eleição municipal de 2004. Segundo o professor de Jornalismo, Marcelo Bronosky, a atividade cria condições de colocar em prática o que é estudado no curso. “A cobertura oferece aos estudantes uma experiência singular e ensina-os a lidar com condições adversas e imprevistos”, conclui.

Confira as transmissões ao vivo realizadas durante o dia:

https://www.facebook.com/jornalperiodico/videos/194591701337313/

https://www.facebook.com/jornalperiodico/videos/730068090666951/

Confira a reportagem de Jéssica  Gradin e Fernanda Wolf

 

Cerca de 68% da população ponta-grossense vai as urnas nesta eleição. Confira a reportagem de Camila Zanardini e Marina Santos Daum

 

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“Meu nome é Marilys, tenho 56 anos. Sou a primeira travesti a retificar o nome social no título de eleitor em nossa cidade, Ponta Grossa, no Paraná. É lei pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que nos dá o direito de sermos chamadas pelo nome social feminino para exercer a nossa cidadania enquanto travestis, respeitando a nossa identidade de gênero, num momento importante para o nosso país, que é a eleição, elegendo nossos candidatos para presidente, governador, deputados e senadores.”

Foto: Enaira Schoemberger

A declaração estava escrita em um papel que Marilys segurava, entre as mãos, quando foi entrevistada pela equipe de reportagem do Portal Periódico. Para ela, esse assunto é de grande importância e, por isso, a travesti teve o cuidado de “falar bonito”, como ela mesma disse quando me viu. Preferindo não usar o sobrenome, para preservar a família, Marilys orgulha-se do novo título obtido aos 56 anos. Se considerado que a expectativa de vida da população trans no Brasil gira em torno dos 35 anos, a conquista assegura não somente a possibilidade, tardia, do exercício da cidadania, mas aponta para a necessidade de políticas públicas voltadas à comunidade LGBTQ+.
A auto-identificação pelo nome social foi reconhecida pelo TSE, em março deste ano, a partir da resolução 23.562/2018. Desde então, a decisão da identificação com o nome social não cabe mais a um juiz, como acontecia anteriormente a partir de solicitação feita com a abertura de processo judicial, mas ao eleitor que passa a ter o direito de ser reconhecido como ele deseja. O nome social, além de indicado no título de eleitor, também constará no caderno de votação das seções, utilizado pelos mesários no dia da eleição.
A trajetória de Marilys até a retificação do nome, assim como na maioria dos casos da comunidade travesti e trans, foi longa. “Eu sou travesti desde os 11 anos de idade, mas me assumi faz uns 5 anos”, relata apontando as dificuldades sociais enfrentadas - como conseguir um trabalho - até ter garantida, em documentos, a identidade trans feminina.
E embora já usasse peças discretas do vestuário feminino enquanto trabalhou como motorista e no comércio, ainda com a identidade de gênero masculino, tinha medo de se assumir e enfrentar o preconceito. “Eu me vestia como masculino, mas eu não me sentia bem. Roupa debaixo eu usava feminina e a roupa de cima masculina. Eu olhava as mulheres, mas eu me sentia totalmente diferente. Eu queria ser o que uma mulher vestia”, relata enfatizando que um dos empecilhos foi enfrentar o preconceito familiar.
A retificação do nome social, no título de eleitor, aconteceu no último dia 03 de maio. Com o documento nas mãos, ela demonstra a satisfação de poder votar, pela primeira vez, como mulher trans. Sair de uma invisibilidade social se revela não somente na materialidade do documento, mas na possibilidade de ser tratada, no espaço público, no gênero feminino. “Eles me chamaram o tempo todo pelo nome social, pelo nome feminino, que é como eu gosto de ser chamada”, relata acerca do atendimento durante o processo de retificação do título no Cartório Eleitoral de Ponta Grossa.
Marilys ainda se ressente de ter passado mais de cinco décadas de vida de autoprivação do direito de assumir a identidade trans, por medo do preconceito. Apesar disso, ao longo da entrevista, parece amenizar o peso dos vários episódios de violência sofridos junto a familiares, vizinhos e até com desconhecidos. Por vezes, chega a demonstrar resignação frente à intolerância social. “Só fui ameaçada de morte duas vezes”, diz.
A fila de espera para a votação no dia 07 de outubro é aguardada com ansiedade pela travesti que acredita ser, finalmente, um momento em que não será mais submetida ao embaraço de ser tratada como um eleitor, sendo chamada por um nome masculino, enquanto se veste, e se sente, como uma mulher trans. “Para nós, é muito importante votar já retificado no título, pra não ter o constrangimento na hora da fila. Estar vestida de mulher e não ter o constrangimento na hora de chamarem. E é muito importante pra nós votarmos, pra ver se mudamos esse país.”
E a mudança não é apenas social, mas também subjetiva. Esta foi a segunda vez que entrevistei Marilys. Na primeira, a travesti se referiu a ela mesma, ao longo de quase toda a entrevista, usando o gênero masculino. Em nosso último encontro, ainda que a fala deslizasse, por vezes, para a identidade masculina, ela já se apresentou como eleitora.
Marilys é a primeira das 21 pessoas a conseguir a retificação do nome social no título de eleitor em Ponta Grossa, segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE).
Representatividade trans na política
Outro avanço para a comunidade LGBTQ+, nas eleições de 2018, acontece com o número de candidaturas de pessoas trans para os cargos legislativos. Segundo o site da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) foram contabilizadas 53 candidaturas, entre elas, uma para o Senado Federal, duas ao cargo de deputado distrital pelo Distrito Federal (DF), 17 candidaturas ao cargo de deputado federal e 33 candidaturas ao cargo de deputado estadual.
No Paraná, temos duas candidatas a deputada estadual: Jéssica Camargo (PT) e Gisele Schimidt (PSB). Para deputada federal, o Estado apresenta apenas uma candidata: Renata Borges (PSB).
ONG Renascer
Fundada no dia 20 de setembro de 2000, a ONG Renascer atua na garantia de direitos para a comunidade em geral através do Serviço de Convivência e de Fortalecimento de Vínculos, que atende a população em geral.
A Renascer desenvolve mais especificamente um trabalho de apoio à comunidade LGBTQ+. Com sede localizada no bairro da Nova Rússia, o grupo acolheu Marilys e a auxiliou na garantia dos próprios direitos como travesti. “Eu tenho o maior carinho pela ONG Renascer, pois eles me resgataram e me deram dignidade. Me mostraram como era o certo pra ser quem eu sou”, relata sorrindo.
O Renascer encaminhou Marilys para a retificação do nome social. “Primeiro, eu passei pela ONG, que me deu toda a orientação para retificar o nome. Então, eu segui o procedimento que eles me orientaram”, explica.
Responsável pela orientação judicial das pessoas acolhidas pela ONG, a advogada Beatriz Martins Ciriaco de Francisco ajudou no passo a passo da retificação do nome social da primeira trans de Ponta Grossa.
A menor burocracia no processo de retificação, destaca a advogada, facilitou na garantia dos direitos básicos da população LGBTQ+. “Hoje, não é mais necessária a passagem burocrática pelo judiciário. A retificação do nome social pode ser feita diretamente no cartório eleitoral”, explica.
A advogada afirma que a retificação do nome social “é importante para não haver constrangimentos na hora da fila do voto e para a pessoa trans sentir-se pertencente e respeitada no espaço público”.


A entrevista com Marilys foi realizada junto com Matheus Rolim, aluno do 2º ano. O repórter já realizou uma matéria sobre a retificação do nome social em documentos para a edição 204 do jornal Foca Livre, disponível no link: https://periodico.sites.uepg.br/index.php/foca-livre/1126-foca-livre-2

Sem cadastramento biométrico 258 mil eleitores no Paraná não poderão votar no próximo domingo dia 7. Confira a matéria de Pedro Andrade e Ingrid Petroski

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Dados do TSE apontam que o Paraná nunca atingiu o mínimo de 30% previsto na Lei das Eleições e ainda falta equilíbrio de gênero na política brasileira

Na tentativa de promover maior participação das mulheres no cenário político brasileiro, as regras do processo eleitoral inclui a obrigatoriedade de que 30% das candidaturas devem ser ocupadas por mulheres. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que o eleitorado feminino é maioria (52%), mas as determinações que buscam maior representação das mulheres, as decisões não garantiram, nas duas últimas eleições, o equilíbrio de gênero na ocupação dos cargos políticos.

A exigência do percentual de 30% é determinada pela Lei 9.504 de 1997 (Lei das Eleições) que teve a redação modificada pela Lei 12.034 de 2009. Com a alteração, o parágrafo terceiro do artigo 10 passou a determinar que os partidos e coligações devem atender “o mínimo de 30% (trinta por cento) e o máximo de 70% (setenta por cento) para candidaturas de cada sexo”.

A novidade para as eleições deste ano é que o TSE mudou as condições do uso do fundo eleitoral previsto. Agora, as mulheres também precisam representar ao menos 30% da destinação de verbas do fundo eleitoral. A Resolução 23.568 de 2018 do TSE determinou as formas de gestão e de distribuição desse recurso, que definido em um montante de R$1,7 bilhão, corresponde à maior parcela de valores para utilização nas campanhas eleitorais. Além disso, 30% do total desse valor e do tempo de propaganda são destinados às candidatas mulheres.

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As recentes mudanças não implicaram, no entanto, em aumento dos registros de candidaturas femininas. Em comparação com as eleições de 2014, dados do TSE informam que, em 2018, no Brasil, há 8,3 mil mulheres concorrendo a cargos, o que significa 30,64% do total. Já em 2014, eram 8,1 mil mulheres, o equivalente a 31,1% das candidaturas.

Enquanto nacionalmente, o índice de candidaturas tenha ficado pouco acima da exigência mínima, no Paraná, o percentual mínimo nunca foi atingido, ficando pouco abaixo dos 30%. De 2006 a 2018, variou de 15,3% a 29,2%.

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A professora de Sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Marlene Tamanini, indica aspectos que contribuem para a pouca participação feminina na política. Para a socióloga, é muito mais difícil para as mulheres entrar no mundo político. “A política é entendida como de homens. Mulheres trabalhadoras não fazem parte dessa classe. E quando essas mulheres tentam se introduzir nos espaços em que os homens discutem política, elas acabam não sendo aceitas”, avalia.

Tamanini comenta, no entanto, que a “lei de cotas” é importante e que, sem ela, o egresso das mulheres em cargos políticos poderia ser menor. “É uma porta para obrigar os partidos a pensar essas questões, mas não resolve”, critica. Marlene frisa que, no entanto, a sensação é de que a política não seria um lugar adequado para as mulheres. “Tratam como se a política fosse algo sujo, algo que não é certo, que não serve para mulher”, analisa.

Os desvios no cumprimento da legislação pelos partidos e coligações dificultam ainda mais a representação feminina na vida política. De acordo com a professora da UFPR, as próprias organizações partidárias acabam recrutando mulheres apenas para preencher os 30% previstos por lei e não apostam nessas candidatas como fortes competidoras em processos eleitorais, pelo lado financeiro, de classe ou mesmo preconceito de gênero.

Nas eleições de 2018, foram registradas, no Paraná, 765 candidaturas para deputado estadual. O número de mulheres que concorrem a esse cargo é 224, o que corresponde a 29,2% do total. Para deputado federal foram registrados 450 candidatos, sendo 130 mulheres, o que representa 28,8%.

Atualmente, apenas três mulheres compõem a lista dos 54 representantes eleitos em 2014 para a Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep), o que corresponde a 5,5% do total. Na Câmara Federal, são duas mulheres do total de 30 deputados federais do Paraná, ou seja, 6,6%.

O contexto de Ponta Grossa

Em Ponta Grossa, dos 14 candidatos que disputam vaga para deputado estadual, seis deles são mulheres (42,8%). O número de candidaturas femininas para este cargo é maior do que o percentual do Paraná (29%). No entanto, na disputa para vaga na Câmara Federal a porcentagem de mulheres candidatas é de 18%, menor do que a média estadual e abaixo do mínimo estabelecido pela legislação. Tamanini fala que a desigualdade está em todo lugar, que é uma questão estrutural. “Um espaço político só com homens é uma volta no tempo horrível”, destaca Tamanini lembrando das escolhas que o presidente Michel Temer fez, no início de seu governo, com totalidade de homens nos Ministérios.

Em Ponta Grossa, dos 14 candidatos que disputam vaga para deputado estadual, seis deles são mulheres (42,8%). O número de candidaturas femininas para este cargo é maior do que o percentual do Paraná (29%). No entanto, na disputa para vaga na Câmara Federal a porcentagem de mulheres candidatas é de 18%, menor do que a média estadual e abaixo do mínimo estabelecido pela legislação. Tamanini fala que a desigualdade está em todo lugar, que é uma questão estrutural. “Um espaço político só com homens é uma volta no tempo horrível”, destaca Tamanini lembrando das escolhas que o presidente Michel Temer fez, no início de seu governo, com totalidade de homens nos Ministérios.

O site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), permite que o eleitor se prepare para o dia da votação simulando seus votos em sequência de cargos políticos: Deputado Federal. Estadual, Senadores, Governador e Preseidente. Confira na matéria de Erica Fernanda e Thailan Pauli

Na última pesquisa de intenção de voto do Datafolha, os dois candidatos com maior porcentagem de intenção de votos são também os que detém maior índice de rejeição. Confira na matéria de Maria Fernanda Laravia e Milena Oliveira:

Fique atento às recomendações para o primeiro turno das eleições nacionais e entenda o que é proibido e permitido no dia 7 de outubro.

Embora legislação tente combater o avanço das notícias falsas, o foco  principal da Justiça Eleitoral está nas propagandas eleitorais

A criação das notícias falsas - as chamadas fake news -  tem afetado as eleições e preocupa a opinião pública. O problema, que se intensificou com o avanço tecnológico, provocou recente mudança na legislação brasileira, a fim de evitar os danos já verificados em diversos países. A  Lei 13.488 de 6 de outubro de 2017, que regula a propaganda eleitoral, trouxe alterações para a Lei  9.504 de 30 de setembro de 1997, conhecida como a Lei das Eleições.

De acordo com o advogado e especialista em Direito e Processo eleitoral Roberto Ribas Tavarnaro, a mudança visou ao combate a perfis falsos, a robôs que distorcem conteúdo e também ao impulsionamento de campanhas que promovam mentiras ou possam ferir a imagem de candidatos. “A Lei 13.488, que trata de propaganda eleitoral, tem um capítulo próprio sobre internet e deriva da Lei das Eleições [Lei nº 9.504], que sofreu uma modificação no ano passado”, destaca.

O advogado também aponta como foram decididas as novas regras e como elas funcionam na prática das eleições. “[A Lei 13.488] trata especificamente desse assunto e envolve não só os candidatos e apoiadores, mas também os provedores que tenham o acesso aos cadastros dessas redes sociais, que são os provedores de conteúdo”, ressalta Tavarnaro. Segundo o advogado, foram feitas reuniões, antes de serem elaboradas as novas regras, com representantes de empresas responsáveis por  redes sociais a fim de se definir o procedimento a ser adotado durante o período eleitoral.

O advogado em Direito Eleitoral e professor do Centro de Ensino Superior dos Campos Gerais (Cescage), Juliano Jaronski, cita como A Justiça Eleitoral aborda o caso das fake news. “O simples fato de você divulgar informações falsas não é bem o foco da Justiça Eleitoral”, destaca Jaronski que participou de congresso sobre Direito Eleitoral, onde o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Luiz Fux, relatou que o ponto central são as fake news na propaganda eleitoral. “Luiz Fux disse que o foco da Justiça Eleitoral não são apenas as notícias falsas, mas são, principalmente, as notícias falsas em propagandas com a intenção de denegrir outros candidatos”, acrescenta.

O procedimento realizado pela Justiça Eleitoral para combater as fake news é a identificação do usuário. Roberto Ribas Tavarnaro comenta que, a partir daí, se dá início ao processo de retirada das informações falsas. “Existe um procedimento próprio. Inicialmente, a Justiça determina que o provedor apresente dados acerca do usuário. Se não for possível identificar esse usuário, ele será considerado anônimo e, só pelo anonimato, já é irregular a propaganda eleitoral”, descreve.

Assista a reportagem sobre fake news divulgada pelo Correspondente Local

Tavarnaro acrescenta que, caso o usuário seja identificado, a propaganda será retirada do ar, mas apenas nos casos em que for comprovada a evidente falsidade da informação. “Se o usuário for identificado, ele não é anônimo. A propaganda só vai ser coibida se ela for ofensiva à honra do candidato ou se for manifestamente inverídica. Ou seja, tem que ser uma mentira muito evidente para que ela seja removida das redes sociais. Se não for assim, cabe ao candidato, durante a sua propaganda, desmentir o que foi falado, o que já é uma regra bem antiga”, conclui.

O jornalismo e as fake news

As fake news não são um fenômeno recente. No entanto, a popularização de espaços de divulgação de  informação, por meio da Internet, vem contribuindo para a circulação das notícias falsas. “Isso já acontece há muito tempo, mas agora, com a massificação das redes sociais, a possibilidade de difusão dessas informações é muito maior”, avalia o advogado Roberto Ribas Tavarnaro.

Durante as eleições, em diversos países, já se verificam, há alguns anos, os impactos negativos dessas informações. Tavarnaro explica que, no Brasil, a criação de mecanismos para barrar essa prática, que veio com a Lei 13.488 de 2017, foi influenciada, sobretudo, pelos episódios ocorridos durante a última a eleição presidencial americana.

Em 2016, durante a eleição presidencial dos EUA, disputada entre Donald Trump, vencedor do pleito, e Hillary Clinton, aconteceu em grande massa uma propagação de fake news pró-Trump. O estudo “Selective Exposure to Misinformation: Evidence from the consumption of fake news during the 2016 U.S. presidential campaign”, realizado por Andrew Guess, Jason Reifler, Brendan Nyhan e publicado em janeiro de 2018, analisa a influência das fake news durante as eleições presidenciais. A pesquisa demonstra que a proporção da amostra de americanos, que visitou pelo menos um site de notícias falsas pró-Trump, foi de 65% dos eleitores mais conservadores.

Fake news apresenta aumento com a popularização dos meios de divulgação de informação por meio da Internet. Foto: Verônica Scheifer

A jornalista e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Andressa Kikuti Dancosky, explica que a expansão da tecnologia foi fundamental para a disseminação das fake news. “Isso é potencializado, enormemente, pela melhoria da estrutura da internet. Agora, muitas pessoas têm acesso por causa dos dispositivos móveis que baratearam”, descreve a doutoranda que também destaca a popularização das redes sociais como causa para o avanço do fenômeno.

A jornalista freelancer e colaboradora do site Boatos.org, Kyene Becker da Silva, aponta as características das fake news na Internet. “As características de boatos são, por exemplo, o texto vago, que apenas lança a notícia e não diz quando aconteceu”, descreve Silva que destaca o caráter alarmista da notícia falsa. “Usa palavras como atenção, preste atenção, você não vai ver isso na Globo, a Globo quer esconder”, observa.

Os divulgadores das fake news se aproveitam, como ressalta a jornalista, dos mecanismos de divulgação de informações das redes sociais. “Geralmente esse tipo de texto de boato vem acompanhado de palavras como compartilhe e repasse, sempre buscando atingir mais pessoas”, afirma sem deixar de ressaltar o fato de que, na maioria das vezes, eles apresentam erros de português.

Kyene, que também é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Divulgação Científica e Cultural da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ressalta a importância da pesquisa acadêmica sobre as fake news a fim de que se investiguem os motivos que levam as pessoas a acreditarem nas notícias falsas. “Quando você começa a estudar esse tema, você conhece quem está por trás, quais são os objetivos, qual o motivo de fazer uma notícia falsa, de que forma isso funciona”, argumenta.