Violência, fome e frio persistem apesar das políticas públicas

Em Ponta Grossa, cerca de 289 pessoas vivem em situação de rua, conforme os dados disponibilizados pelo CadÚnico e descritos no Plano Municipal de Assistência Social de 2022-2025. Esses números são apenas a ponta do iceberg, já que muitas pessoas em vulnerabilidade não são devidamente registradas nos programas sociais como o CadÚnico. Mesmo com políticas públicas que oferecem alimentação ou algum lugar para ficar, a vida nas ruas é um desafio pelo frio, fome e violência. 

Genildo Rosa de Almeida, de 40 anos, perdeu o emprego no início de 2020, devido a crises de convulsões que o impediam de trabalhar. Desde então, aguarda a perícia médica do INSS para solicitar aposentadoria por invalidez. Genildo conta que a dificuldade para conseguir emprego fez com que não pudesse pagar o aluguel e acabou sem uma casa, dormindo nas marquises da cidade. 

Para Genildo e tantos outros em situação de rua, a vida nas ruas é uma luta diária contra a fome, o frio e a violência. Ele revelou que a bebida tornou-se uma forma de aliviar o sofrimento. "Eu peço dinheiro pra comer, mas também uso para poder beber alguma coisa à noite", afirma. Genildo se sente aliviado por poder contar com a sopa distribuída pela Organização Espírita Cristã Irmã Scheilla, responsável por fornecer duas refeições por dia para ele e outros que enfrentam a mesma realidade. “Pelo menos tenho dois pratos de comida garantidos por dia”, destaca. 

Luana Diniz Palácio, de 25 anos, também enfrentou períodos de vulnerabilidade e insegurança. Em 2017, precisou viver nas ruas após o companheiro ser preso e ela ficar desempregada. Além disso, o conselho tutelar tomou a custódia dos dois filhos, tornando esse período o mais difícil de sua vida. Ela desabafou sobre a solidão que sentiu naquele momento “Essa foi a pior época da minha vida, ficar longe das minhas crianças. Nenhuma mãe aguenta isso, eu chorava bastante com esse sentimento de solidão”, desabafa. 

Luana enfatizou que como mulher enfrentou desafios extras, inclusive violência física, embora preferiu não detalhar sobre esses episódios. Ela buscou ajuda em diversas igrejas e casas, mas ainda assim, foi difícil encontrar o apoio necessário para superar as dificuldades sendo mulher. Felizmente, Luana conseguiu um emprego em serviços gerais em menos de um ano nas ruas, o que lhe permitiu alugar uma casa e ter os filhos de volta. “Mesmo com a casa demorou alguns meses para eu pegar meus filhos de volta. Agora com eles eu me sinto mais feliz ", afirma.

 PESSOA SITUAÇÃO DE RUA Vitor Almeida

Quase 300 pessoas estão em situação de rua em Ponta Grossa. Foto: Vítor Almeida

Acolhimento em Ponta Grossa

Enquanto o sol se põe na cidade de Ponta Grossa, a Casa de Acolhimento Maria Isabel Ramos Wosgrau começa a se preparar para receber pessoas com histórias semelhantes às de Genildo Rosa e Luana Palácio. Apenas em julho a casa atendeu 1.776 pessoas.  Situada na área central da cidade, as portas abrem todas as noites, às 20h, acolhendo até 70 pessoas por dia com expansão para mais 30 pessoas quando necessário. O atendimento no local segue até às 08h da manhã do outro dia.

Administrado pela Prefeitura, através da Fundação de Assistência Social de Ponta Grossa, o espaço tem 35 camas beliches de metal, com finos colchonetes e cobertores populares. Desde sua inauguração em junho de 2022, a cidade deixou de oferecer alojamento temporário em ginásios de esportes durante os dias com as menores temperaturas registradas. Cada usuário da casa recebe marmitex ou lanche e uma bebida que varia entre suco, chá, café ou refrigerante. A alimentação é oferecida pela prefeitura e também por voluntários. 

Porém o local nem sempre é totalmente ocupado. As principais noites em que todas as camas estão ocupadas são com as menores temperaturas e noites chuvosas. Genildo também compartilhou que prefere não passar todas as noites na Casa da Acolhida. O motivo é que algumas pessoas que frequentam a casa não se dão bem com outras, o que gera conflitos e dificuldades para conviver. A assessoria da Prefeitura, via e-mail, confirmou que mesmo com a busca ativa, nem todos aceitam serem encaminhados para os abrigos. Uma parte significativa dessas pessoas que recusam o atendimento tem problemas crônicos de dependência química, o que é proibido dentro da Casa. 

Na outra extremidade da cidade, no bairro Uvaranas, a Casa da Acolhida Vila Vicentina, vinculada à Sociedade de São Vicente de Paulo, oferece uma cama para 50 pessoas. Situada na Rua Doralício Correa, a Casa está localizada próximo ao Cemitério Vicentino, cerca de quatro quilômetro da região central da cidade. As pessoas são encaminhadas até a casa pelo CREAS POP e o CREAS Acolher.  

O local proporciona quatro refeições diárias, banho, roupas limpas e produtos de higiene. A Casa Vila Vicentina também se preocupa com o bem-estar e o desenvolvimento dessas pessoas, a partir de iniciativas como o projeto de salão de beleza, que promove cuidados estéticos e autoestima. O projeto de leitura, com uma mini-biblioteca, incentivando o acesso ao conhecimento também é um exemplo. 

 

Rede de apoio alimentar 

Outro desafio enfrentado pelas pessoas em situação de rua, é a constante insegurança alimentar. A falta de acesso a refeições adequadas coloca essas pessoas em uma situação de vulnerabilidade extrema. No entanto, em Ponta Grossa existem iniciativas da sociedade civil e de instituições não governamentais que têm como objetivo fornecer alívio à fome. Uma das organizações que desempenham o papel na luta contra a fome na cidade é a Organização Espírita Cristã Irmã Scheilla. Diariamente, cerca de 200 pessoas se alimentam na instituição, com aproximadamente 60 litros de sopa preparadas por refeição.

Sob a liderança de 62 voluntários e uma equipe de 3 funcionários, a organização se empenha em fornecer não apenas refeições nutritivas, mas também cuidado e empatia às pessoas em situação de rua. Vera Lucia Moraes Silva, voluntária na Irmã Scheilla, conta que tudo realizado pela instituição é pensado no bem das pessoas da cidade. “Qualquer pessoa pode chegar aqui e comer, não importa quem seja. A comida é uma delícia, bem feita para repor um pouco dos nutrientes para as pessoas em vulnerabilidade”, complementa Vera. 

De segunda a sexta a partir das 9h da manhã, a sopa é preparada bem cedo pelos voluntários para garantir que essas pessoas não passem fome ao longo do dia. Durante a tarde, a organização distribui uma cesta de alimentos de emergência, contendo itens essenciais como arroz, feijão, uma caixa de leite e macarrão. À noite, outra equipe de voluntários prepara a sopa que será distribuída às 19h para aquecer essas pessoas e “garantir uma noite mais humanizada e longe da fome” relata Vera Lucia. 

A Irmã Scheilla não só recebe doações de alimentos e roupas, mas também adquire suprimentos necessários com o dinheiro arrecadado por meio das vendas de sua lojinha e bazar. E, mesmo diante das dificuldades financeiras, a organização permanece comprometida em fornecer uma refeição nutritiva para aqueles que precisam. Alexandra, uma das voluntárias na cozinha,  compartilha que prepara a sopa há quase 2 anos e que, através desse trabalho voluntário, desenvolveu um profundo senso de empatia. “Não tem como descrever o que eu sinto ao ver o sorriso nos rostos das pessoas quando recebem um prato de comida”, conta. 

 

Ficha técnica:

Produção:  Alex Dolgan 

Foto: Vítor Almeida

Edição de texto: Iasmin Gowdak e Leonardo Czerski

Publicação: Iasmin Gowdak

Supervisão de produção: Manoel Moabis

Supervisão de Publicação: Luiza Carolina dos Santos e Marizandra Rutili