Prova para os povos indígenas do Paraná aconteceu em Faxinal do Céu e é espaço político e de integração entre tribos

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Primeiro dia de prova consistia em avaliação oral. Foto: William Clarindo/ Lente Quente

 

Na última sexta-feira, 30 de novembro, foi lançado o resultado do 18° Vestibular dos Povos Indígenas do Paraná. Convênio entre oito universidades públicas do Paraná, organizado através da Comissão Universidade Para os Índios (Cuia), o vestibular aconteceu entre os dias 20 e 22 de outubro, no Centro de Eventos Faxinal do Céu, distrito do município de Pinhão (30.208 habitantes segundo o IBGE), na região centro-sul do Paraná.

Faxinal do Céu, localizado a 28 quilômetros da região central do municípios, recebeu cerca de 1.200 visitantes. Uma grande movimentação de ônibus, vindos de 14 estados, diferentes trouxe estudantes, familiares, lideranças indígenas e organização para a realização do vestibular. Segundo informações da CPS, foram 853 inscritos.

Os vestibulandos puderam ser acompanhados por familiares e membros de suas tribos durante o período de realização da prova, em Faxinal do Céu. O Centro de Eventos de Faxinal do Céu é administrada pela Companhia Paranaense de Eletricidade (Copel).

“É uma questão cultural dos indígenas fazer suas atividades em comunidade. Nós da organização não nos atentamos a essas questões”, confessa o coordenador da Comissão Permanente de Seleção da UEPG, Edson Luis Marchinski.  

Os vestibulandos e seus acompanhantes pertencem a 72 etnias indígenas diferentes e disputam por um total de 52 vagas, divididas entre as sete universidades estaduais paranaenses e a Universidade Federal do Paraná (UFPR). São seis vagas para cada instituição estadual e dez para a UFPR.

Além da realização das provas, nos três dias, em Faxinal do Céu, os vestibulandos acompanharam atividades culturais promovidas pela Cuia e pelas lideranças indígenas do Paraná, com intuito de apresentar a cultura indígena e compartilhar experiências.

O evento iniciou oficialmente na noite do dia 20, com o discurso do reitor da UEPG, Miguel Sanches Neto. Neste ano, a UEPG organizou o vestibular. A última vez em que a UEPG organizou a prova foi em 2011, sediada em Ponta Grossa.

Nos dias 21 e 22 aconteceu a prova, que se dividiu em duas etapas. Na primeira fase, os inscritos no vestibular realizaram uma prova oral individual, em que eram chamados para debater, em português, com dois professores avaliadores sobre temas relacionados à questão indígena. Os vestibulandos tinham que discutir sobre o Projeto de Emenda Constitucional 255, que transfere do Governo Federal para os estados a obrigação de demarcar terras indígenas.

Nesta etapa, segundo a professora Isabel Rodrigues, do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá (UEM), tem por objetivo testar o conhecimento dos vestibulandos para temas ligados à legislação indígena e analisar seu domínio da língua portuguesa. A prova teve início às oito da manhã e foi feita em turnos, por ordem alfabética.

O segundo dia contou com uma avaliação de conhecimentos gerais, como o processo universal de seleção. Entre as questões, porém, a temática indígena se fez presente novamente. A prova escrita conta com questões sobre línguas estrangeiras. No vestibular indígena, os vestibulandos podem escolher entre inglês, espanhol, francês, kaigangue e guarani.

O cacique Daniel Galdino realiza o vestibular pela segunda vez e disputa uma vaga em Medicina, na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). O indígena lidera a aldeia Ocoí, da etnia ava-guarani, em São Miguel do Iguaçu, no Paraná, e comenta que pela vivência em luta, as questões indígenas abordadas no vestibular se fazem importantes. “Na minha aldeia, há quatro membros formados em Pedagogia, um com mestrado e mais seis que estão enfrentando as universidades. Para nós, é muito orgulho ver a juventude da nossa comunidade estudando”, complementa.

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No segundo dia de prova foi feita uma avaliação de conhecimentos gerais. Foto: Gabriel Miguel/ Lente Quente

A história do vestibular

O Vestibular dos Povos Indígenas do Paraná acontece desde 2002, conforme a lei estadual 13.134/2001. A legislação foi apresentada pelo então deputado estadual Cezar Silvestri, com a finalidade de suprir demanda de lideranças indígenas. Silvestri faleceu na manhã do dia 21 de outubro, durante a realização da primeira fase da 18º edição do vestibular.

A lei estabelece que cada instituição estadual de ensino superior (Iees) oferte três vagas. A organização e a regulamentação do vestibular ficam sob responsabilidade da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), em conjunto com as Iees. O regulamento, criado pela Comissão Universidade para os Índios, estabelece que o vestibular será organizado por rodízio entre as Iees. Inicialmente, a universidade organizadora sedia a prova.

Para a primeira edição do vestibular, havia seis Iees: a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) a Universidade Estadual de Londrina (UEL), a Universidade Estadual de Maringá (UEM), a Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), a Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e Universidade Estadual do Paraná (Unespar). A Unicentro sediou a primeira edição em Guarapuava, como lembra a professora Isabel Rodrigues, do Departamento de História da UEM.

“Foram mais ou menos 60 inscritos naquele vestibular”, relata Rodrigues. Foram ofertadas 18 vagas, já que a lei estabelece que cada Iees oferte três vagas para os povos indígenas residentes no Paraná. Em 2006, uma nova lei estadual aumentou o número de vagas ofertada de três para seis. No mesmo ano, foi assinado um convênio com a Universidade Federal do Paraná (UFPR), que disponibilizou dez vagas para indígenas de todo o país.

O vestibular é coordenado pela Cuia, financiado pela Seti e organizado pela universidade da vez. A partir de 2006, com a criação da Universidade Estadual do Norte Pioneiro (UENP), o rodízio passou a ser realizado entre a Unicentro, Unioeste, Unespar, UENP, UEL, UEM, UEPG e UFPR.

O evento foi crescendo gradativamente e as universidades ficaram incapazes de sediar a prova em seus campi. Em 2017, na 17ª edição do vestibular, a prova teve um total de 739 inscritos. Já que o regulamento da Cuia garante que os indígenas possam estar com seus acompanhantes durante a prova, o vestibular teve de ser sediado em um centro de eventos com instalações hoteleiras do distrito de Faxinal do Céu, na cidade de Pinhão, o espaço é gestado pela Copel e recebe o vestibular desde 2016.

O estudante na universidade

No momento da inscrição, ao invés de escolher cursos, como no sistema universal de entrada universitária, os vestibulandos indígenas escolhem áreas e sinalizam três opções de instituições. A maioria dos vestibulandos escolhem as áreas de saúde e educação, para retornar a suas aldeias no futuro e prestar serviços básicos à sua população.

O vestibular serve como uma forma dos indígenas ingressarem na universidade utilizando o aprendizado próprio que recebem em escolas das suas terras.  “Trata-se de uma política de inclusão que possibilita aos estudantes indígenas trabalhar em qualquer área do conhecimento”, comenta o professor José Galdino, professor do Departamento de História da UEPG e vice-presidente da Cuia Estadual e membro da Cuia na UEPG.

Na UEL, os ingressantes indígenas passam por um ano de adequação por meio do Ciclo Intercultural de Iniciação Acadêmica dos Estudantes Indígenas. Na UEPG, o estudantes entram diretamente nos cursos escolhidos.

“Estamos nos articulando para elaborar políticas de permanência desses estudantes dentro da UEPG. Por enquanto, os estudantes são amparados com um auxílio financeiro”, explica Ione Jovino, diretora do Centro de Auxílio ao Estudante  (CAOE), na UEPG. Os estudantes recebem o valor de R$ 900 como bolsa-auxílio para permanecer na universidade. Há um adicional para os estudantes que já são pai.

Na Universidade Estadual de Maringá (UEM), existe a Associação dos Universitários Ingenas (Auindi), criada para levar para a Cuia local as demandas dos estudantes.

Conforme Murilo Dias, estudante de Medicina na UEM, a Auindi quer representar os 54 estudantes indígenas da instituição, divididos entre as modalidades de ensino presencial e à distância.

“Na UEM, nossa principal luta é por uma maior visibilidade dentro da universidade e uma voz mais ativa dentro da Cuia local. A gente precisa começar a pensar em políticas para nós mesmos, porque a gente sente na pele o preconceito”, defende.

O estudante, que é de origem guarani-andeva, relata que na Universidade existe uma série de preconceitos praticados por estudantes e professores não-indígenas,  principalmente ao que se refere ao aprendizado dos indígenas, que são vistos como atrasados por essas pessoas.

   

Um vestibular pioneiro

“Esse vestibular é pioneiro no Brasil”, conta a professora Isabel Rodrigues, que participou da regulamentação inicial e esteve presente em 14 dos vestibulares. Rodrigues cita os exemplos dos vestibulares dos povos indígenas na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que seguiram o modelo do vestibular paranaense.

A professora também explica que o processo é único no país. Em certos estados, indígenas realizam o vestibular universal e estão inseridos em sistema de cotas exclusivo. Em outros casos, universidades ofertam cursos voltados à formação específica para indígenas, opções diferentes das ofertadas para outros vestibulandos.

Entretanto, Rodrigues reforça que “nenhum vestibular reúne tantas universidades e abrange o estado inteiro”. A prova representa também um espaço de encontro e integração de diferentes povos e lideranças do movimento.

“Para nós, indígenas, é com muito orgulho que nossos jovens estão na universidade para se tornarem lideranças e lutarem junto das suas comunidades pelos seus direitos, como a demarcação”, comenta o cacique Daniel Galdino.

Dentro do vestibular, lideranças indígenas se reuniram para protestar contra figuras políticas que ameaçam a causa indígena, como o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). Em carta, as lideranças defendem a continuidade do vestibular como um direito dos povos indígenas do Paraná, assim como outros serviços.

“Temos, hoje, o vestibular indígena, escolas dentro das aldeias, assim como postos de saúde da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e outros atendimentos. Nós, lideranças, ficamos atentos para que não haja um retrocesso nessas áreas”, aponta o cacique guarani Leandro Alves.

Falar dos problemas do vestibular

Em 2017, foram 754 inscritos no Vestibular dos Povos Indígenas. O vestibular deste ano teve um número de inscrições muito superior aos anteriores: 832 vestibulandos para 52 vagas.

“Houve um número recorde de inscrições para uma quantidade de vagas pensadas há muito tempo atrás. Essa situação precisa ser revista e aprimorada”, comenta a professora Ione Jovino, coordenadora do Centro de Atendimento e Orientação aos Estudantes (Caoe) da UEPG. A quantidade de vagas não é alterada desde 2006.  

A professora do Isabel Rodrigues credita esse aumento ao número de estudantes indígenas que finalizam o ensino fundamental e o ensino médio. “Tanto nas aldeias quanto nas cidades, aumentou o número dos estudantes indígenas com ensino médio completo, que se voltam ao ensino superior”, explica Isabel Rodrigues.  

O número recorde de inscritos acarretou em outro problema. As instalações hoteleiras de Faxinal do Céu abrigam cerca de 800 pessoas. Entre os vestibulandos, seus acompanhantes e a equipe de organização, mais de 1200 pessoas tiveram de ser alojadas durante o vestibular.

O clima estava quente nos dias de realização da prova e isso favoreceu a vinda dos inscritos e de suas comunidades para o local da realização da prova em Faxinal do Céu. “Normalmente, chove nos dias de vestibular, o que desencoraja os vestibulandos a saírem de suas aldeias. Ano passado, por exemplo, dos cerca de 700 inscritos, apareceram 400”, comenta Cleunice Casturina, presidente do vestibular indígena.

Para José Galdino, ainda há uma falta de espaço no mercado para os estudantes indígenas que se formam. “Formados na área de saúde e educação conseguem fazer concursos públicos para suas áreas porque existem demandas em suas aldeias”, complementa. Galdino explica que ao, saírem de suas aldeias para as universidades, alguns indígenas (faltou algo aqui) Existe um compromisso dos formados com suas comunidades mas nem todos cumprem, visto à falta de espaço para suas formações”, explica.