Foto: Angelo Rocha.

 

A realidade não é diferente em Ponta Grossa. Em 2017, uma travesti foi assassinada e outras duas foram esfaqueadas


Nos cinco primeiros meses de 2017, duas travestis foram esfaqueadas e uma foi morta em Ponta Grossa. Os números, quando somados à realidade nacional, fazem do Brasil o país que mais mata travestis e mulheres trans no mundo. Em contrapartida, os brasileiros são os que mais consomem conteúdo pornográfico de travestis no mundo, segundo o site de vídeos eróticos RedTube. De acordo com dados da organização Transgender Europe, que visa à descriminalização e a igualdade das pessoas trans conforme a sua identidade e expressão de gênero, 900 travestis e pessoas trans foram mortas no Brasil entre janeiro de 2008 e setembro de 2016. Em 2017, já são 112 casos de assassinatos. Os números podem ser ainda mais impactantes, pois o levantamento é realizado com base em reportagens que saem na mídia, e não consideram as denúncias.


Em Ponta Grossa, segundo a travesti e agente social Debora Lee, a burocracia das instituições impede a obtenção de dados pontuais sobre a dimensão real da violência. “No registro da polícia ou até mesmo no IML [Instituto Médico-Legal], não existe identidade de gênero, ou é masculino ou é feminino, a gente não se encaixa nesses padrões”. Não existem leis que classifiquem a transfobia ou homofobia como um crime, o que dificulta a visibilidade dos casos já que as ocorrências, na delegacia, são enquadradas em outros crimes, mascarando os números.


A violência física é apenas uma das diferentes batalhas no cotidiano de uma travesti. De acordo com co-coordenador do Grupo de Estudos Territoriais (GETE) e professor do Departamento de Geociências da UEPG, Marcio Ornat, uma travesti passa por diferentes tipos de mortes durante a vida. “A morte física é o limite, elas vivem uma vida toda de mortes sociais, que se referem ao espaço da casa, escola e trabalho”. Em 2008, Ornat defendeu a dissertação de mestrado intitulada “Território da Prostituição e Instituição do Ser Travesti em Ponta Grossa”. 


Segundo dados do Grupo Renascer, existem aproximadamente 60 travestis em Ponta Grossa. Dados da União Nacional LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) mostram que a expectativa de vida de uma travesti é de 35 anos, média de vida da população brasileira no início do século 20. Em 2015, a expectativa de vida do brasileiro é de 75,5 anos, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre as causas de morte está a violência física que vai da agressão até o assassinato. No mês de junho, a equipe do Periódico acompanhou as histórias de quatro dessas mulheres. Em meio aos relatos sobre as violências físicas, psicológicas e sociais que passam diariamente, elas contam histórias de luta pelo respeito e reconhecimento social.

 

Imagem: Angelo Rocha.

 

PERFIS
Debora Lee, 45 anos, é travesti e fundou o grupo Renascer há 17 anos. Desde então trabalha como agente social na luta pelos direitos LGBT e é representante na Comissão Nacional de Articulação com Movimentos Sociais (CAMS) em Brasília. Debora também realiza trabalho de campo nas ruas, bares, boates da cidade, apresentando a ONG à população.


Aos 54 anos, Fernanda Riquelme atua como secretária e tesoureira no Renascer. Fernanda, que ainda trabalha como acompanhante, quase foi morta nas ruas da cidade.


Suzana Godoi, 28 anos, que é balconista e bailarina clássica, se identifica enquanto mulher trans. Suzana escolheu não realizar a mudança de sexo e não tomar hormônios. “Eu paro e penso. Poxa, por que tem que ser assim? A vida é uma só. E se mutilo e dá errado, acaba para vida inteira, com 28 anos eu vou ser enterrada?”


A jovem Jaqueline Santos, 19 anos, se apresentou como travesti e, por vezes, usava transexual para se definir. Durante a conversa, enquanto relatava as dificuldades para concluir os estudos, Jaqueline revelou estar em processo de transição sexual. Sem emprego registrado, trabalha como acompanhante.

 

"A gente aprende a sobreviver", reportagem do Portal Comunitário no Grupo Renascer

 

Imagem: Angelo Rocha.

 

O COMEÇO: MORTE FAMILIAR

“Isso é uma bola de neve. Perdi minha mãe com 12 anos e sem o apoio da família fui jogada para fora de casa. Estudei até a terceira série do primário e não tive a oportunidade de continuar meus estudos”, revela Debora Lee. Para ela, o apoio da família é fundamental para o acesso à educação. “Quando se perde o direito à educação, automaticamente se perde o direito ao trabalho. O que sobra para uma travesti com a identidade de gênero já formada é cair na prostituição.”


Debora, que se prostituiu durante 34 anos, agora termina o ensino médio com o objetivo de cursar Serviço Social. “Acredito que o amor está falando mais alto e muitas famílias não querem seus filhos nas ruas, sofrendo”, conta. “Mas para quem ainda não recebe o apoio familiar, a prostituição é uma das poucas escolhas.”


Suzana nunca falou que era travesti para sua família. "Eu nasci, cresci e sou assim", afirma. "Não fui expulsa de casa, mas minha mãe me levou ao psicólogo, e minha avó dizia que eu tinha espírito perturbado e que devia levar surra com espada de São Jorge". Quando se descobriu travesti, aos 12 anos, Suzana já estava nas esquinas se prostituindo. Um ano depois estava em uma boate, aos 15 anos foi "vendida" para uma casa de prostituição e aos 16, negociada com outra. "Eu me tornei assim a custo de muita paulada e surra que levei da vida".


As histórias de travestis e transexuais se assemelham. Jaqueline escutou em casa que a identidade de gênero era “coisa inventada na cabeça” e que logo iria passar. Depois de consultar com psicólogos, abandonou o lar.

 

 

INVISÍVEL: O PRECONCEITO E A EXCLUSÃO NAS ESCOLAS

Ir à escola, atividade simples para qualquer criança, e outras tarefas do dia a dia como usar o banheiro, é um desafio para travestis e transexuais. “Na minha cabeça eu era menina, não sabia por que tinha que ir ao banheiro masculino”, relata Suzana, que esperava o intervalo para usar, mesmo com medo das chacotas. Para Jaqueline, o retorno à escola com outra identidade foi difícil. A jovem, que voltou para terminar o ensino médio, não foi bem recebida. "É muita pressão uma garota transexual na sala de aula. Eu não via problema algum, mas, sim, as pessoas que frequentavam [a escola]", garante.


Para além dos banheiros, os professores não têm autonomia para falar sobre gênero. Em 2015, quando se discutiam as diretrizes do Plano Municipal de Educação, a Câmara dos Vereadores de Ponta Grossa vetou as palavras “gênero” e “diversidade” do documento, dificultando a aprendizagem em sala de aula. Além disso, dados do próprio Ministério da Educação, obtidos em 2009 nas escolas do país, mostram que 93,5% dos entrevistados revelaram atitudes preconceituosas em relação ao gênero.


Para Debora Lee, a resistência precisa existir. “Não temos outra saída a não ser ocupar nossos espaços nas escolas e universidades para terminarmos nossos estudos, porque é apenas com um diploma na mão que vamos poder provar a nossa capacidade”, ressalta.

 

DIREITO DE SER QUEM SOU

Através do Renascer, Debora auxilia travestis e transexuais, no processo jurídico de alteração de nome e uso do nome social. “É muito constrangedor chegar em um lugar com aparência de Maria e ser chamada de João. Eu já passei por isso em lugares públicos e não é nada legal”, garante. O processo, além de demorado é burocrático, inibindo a busca pelo direito.


De acordo com o advogado Ricardo Berbetz, o que dificulta a alteração de registro civil é a ausência de legislação. "A forma de viabilizar a modificação de nome e gênero é por processo judicial e isso possui algumas implicações, uma vez que um juiz pode ter entendimento diverso do outro, gerando uma loteria judicial", explica Berbertz. Suzana relata a dificuldade na retificação do nome em Ponta Grossa. "Aqui tem que provar muita coisa para o juiz aceitar. Mas eu consegui usar o meu nome social no cartão do SUS, porque foi decretado em lei". Ela refere-se à campanha do Ministério da Saúde de incentivo a maior acesso à rede pública para travestis e transexuais.


Ricardo lembrou que está em pauta na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal o Projeto de Lei 5.002/13, de autoria dos deputados federais Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Erika Kokay (PT-DF). A lei prevê ao cidadão o direito à identidade de gênero, o que altera o art. 58 da Lei nº 6.015 de 31 de dezembro de 1973, cujo texto diz que o nome de batismo é definitivo, podendo ser trocado apenas por apelidos públicos notórios.

 

Imagem: Angelo Rocha.

 

“MEU ESCRITÓRIO ERA A RUA DO CEMITÉRIO”

As portas do mercado de trabalho estão sempre fechadas para as travestis, afirma Suzana. “Hoje, se uma travesti não se prostitui, é cabelereira. Não espere que uma loja acolha, por mais qualificação que a menina tenha”. Exemplo disso é Jaqueline que, em processo de transição sexual, perdeu uma oportunidade de aprendizagem. “Ligaram de um banco chamando para a vaga e minha mãe explicou que sou transexual. Quando cheguei para ver o emprego, disseram que não existia mais”. Ela, assim como muitas dessas mulheres, trabalha na prostituição desde que completou maioridade.


De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (ANTRA), 90% das travestis e transexuais se prostituem no Brasil. Em Ponta Grossa, cerca de 30 delas trabalham na área, segundo balanço feito pelo Renascer, que faz o acompanhamento de quem procura a instituição.
Suzana, que hoje tem outra ocupação, já exerceu o mesmo ofício. “Onde eu acho travesti [em Ponta Grossa]? No cemitério. Quando eu fazia ponto, dizia para minha mãe que ia para o escritório, que é a rua do cemitério”. O local é o que mais concentra a oferta de serviços sexuais na cidade. Suzana comemora o novo emprego como balconista. “Antes, se queria ter dinheiro, não era levando currículo em loja, tinha que ir para a esquina, se não o dinheiro não vinha.”

 

“TRAVESTI TEM O DIREITO DE AMAR”

Suzana conta que agora que está noiva o preconceito é duplo. “Perguntei se ele está ciente do que vai acontecer, porque na realidade tudo é diferente. Ele é hétero, bissexual, na verdade, por estar comigo, mas a partir do momento que ele assumir, as portas vão se fechar, os problemas vão aparecer e ele vai ser excluído”. Suzana também conviveu com o preconceito velado. “Conhecia pessoalmente homens e eles elogiavam, mas perguntavam se eu conhecia um lugar escondido para o encontro, se podia sair antes para não ver a gente junto”, lamenta. “Travesti tem direito de amar, de ser feliz, mas a gente tem medo. Encaro a sociedade como minha realidade e se eu não conseguir mudar para mim, tudo bem. Vou deixar as portas abertas para a próxima que vier, e vou aplaudir de pé se ela conseguir”.

 

De acordo com Jaqueline, alguns homens tentam o contato por achar que travestis e transexuais se submetem a qualquer coisa. “Uma vez tentaram me obrigar a fazer de tudo dentro do carro, até sexo sem camisinha. Eu recusei, mas ele estava armado. Tive que ir conversando até convencer ele a me deixar sair”, lembra. Muitos homens casados, revela Suzana, procuram relacionamentos com travestis.

 

MORTE FÍSICA: O RESULTADO DE UMA SÉRIES DE PORTAS FECHADAS

Convivendo com diferentes formas de preconceito diariamente e sem políticas públicas que incentivem a inserção de travestis e transexuais no mercado de trabalho, a prostituição se torna realidade e, a morte física, uma consequência. Na noite do dia 27 de setembro de 2007, Fernanda Riquelme trabalhava na rua Travessa Pasteur, atrás do Cemitério Municipal São José, e foi surpreendida por um carro com quatro rapazes. O que estava para acontecer era uma agressão. No vídeo Riquelme conta os detalhes da violência.

 

 


GRUPO RENASCER: A SUPERAÇÃO DE SOBREVIVER AO PRECONCEITO

Debora Lee e Fernanda Riquelme se conheceram na época em que as duas trabalhavam como prostitutas nas ruas de Ponta Grossa. Riquelme conta, orgulhosa, que foi ela quem incentivou a amiga a estudar. “Sempre dizia que ela era nova e tinha potencial para correr atrás das oportunidades”, lembra. E foi a Debora quem começou o trabalho com a ONG Renascer, nos anos 2000. Desde então, o trabalho de assistência acontece na cidade e região, graças à união das duas companheiras de história. Hoje elas se ajudam para levar a instituição adiante e, mesmo com as dificuldades, trabalham para construir uma sociedade com mais direitos e com menos preconceito.

Imagem: Angelo Rocha.
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