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Sala do segundo ano do colégio Elzira, com 37 alunos. Foto: Ana Flávia Aranna

 

Numa quarta-feira pela manhã, um aluno levanta a mão e pede ajuda para a professora de matemática. Ela tenta, mas não consegue chegar até ele, pois a aglomeração de carteiras a impede. Ao lado, um grupo de estudantes conversa e ri alto, enquanto outros tentam se concentrar na explicação da aula e em suas atividades. 

 

 

A sala pequena e as paredes de madeira deixam o ambiente quente e faz com que os 40 alunos e a professora fiquem desconfortáveis. “Os professores de filosofia e português dão aula fora da sala por causa do calor”, conta Jennyfer Oliveira, estudante do terceiro ano do ensino médio no Colégio Elzira Correia de Sá. A situação reflete o cotidiano não de um, mas de vários colégios estaduais de Ponta Grossa. 

 

 

Situação dos Colégios

 

O Colégio Elzira Correia de Sá, localizado na vila Santa Paula, é o maior colégio estadual da cidade, com 2200 alunos matriculados em três turnos. Nos períodos da manhã e da tarde são 22 turmas, e a noite há 20. Além dos alunos matriculados, a lista de espera é grande - segundo a direção, cerca de 300 estudantes esperam uma vaga no ensino médio.

 

 

O diretor do colégio Vagner Guedes explica que houve um crescimento na região e muitos conjuntos habitacionais foram construídos ao redor da escola. “A Prefeitura constrói escolas nos bairros quando surgem bairros novos, já o Estado não constrói as escolas”. Segundo Guedes, os alunos saem de escolas do fundamental 1 e lotam as escolas que possuem o fundamental 2. Ponta Grossa possui 155 escolas de ensino fundamental e apenas 47 escolas ensino médio. 

 

 

Cada turma de ensino fundamental tem cerca de 35 alunos e no ensino médio são 40 alunos, mas no período da noite há uma sala com 50 alunos. “Todo ano abriam duas turmas de primeiro ano no turno da noite, cada uma com cerca de 35 alunos, chegava o final do ano cada turma tinha 10, 15 alunos porque a maioria desistia”, afirma o diretor do colégio Vagner Guedes. Devido às desistências, o Núcleo de Educação não permite mais a abertura de duas turmas. “Mesmo com o excesso de alunos eles não permitiram que a gente abrisse outra turma”, relata.

 

 

A recomendação do Ministério da Educação (MEC) é de que as turmas do ensino fundamental tenham uma média de 25 a 30 alunos e o ensino médio tenham no máximo de 30 alunos por classe.  Já  a determinação do Núcleo Regional de Educação (NRE) é de que as salas devem ter no mínimo 30 alunos. Segundo Guedes, no caso de duas salas de aula com 29 alunos, o núcleo aprova a abertura de apenas uma turma, mesmo que contenha 58 alunos. 

 

 
Sala do segundo ano do colégio Elzira com divisória de madeira. Foto: Ana Flávia Aranna

 

Para tentar conter a superlotação, o Estado aumentou o número de turmas no Colégio José Gomes, que funcionam no período da noite. “Por causa da demanda, montaram então o ensino médio noturno no Colégio José Gomes na Santa Terezinha, só que dependendo da idade das crianças os pais não querem, e de dia não tem”. O turno da manhã do Colégio Elzira, por exemplo, continua com a mesma demanda de alunos. 

 

 

Outro colégio que vive situação semelhante, é o Regente Feijó. O Colégio possui atualmente 2.071 alunos matriculados nos três turnos. No período matutino são 20 salas, divididas entre segundo e terceiro ano do ensino médio, e a tarde são 23 salas. A média de alunos por turma varia de 36 a 40. 

 

 

A secretária Daniele Flores diz que o colégio não possui lista de espera, mas cerca de 30 alunos a cada semana vão tentar uma vaga. “Nós optamos por não fazer lista de espera, para não privilegiar alguns estudantes, então quem chegar primeiro, ganha a vaga. Ela completa dizendo que “É como uma loteria, é sorte”.  

 

 

A diretora Mara Regina de Castro do período matutino explica que, por estar localizado na região central e ser um prédio histórico, não há possibilidades de ampliar o colégio. 

 

 

O diretor do período noturno Ilário Valmor Waldman explica que para 2018 veio uma resolução do NRE para o colégio Regente que o proíbe de abrir uma sala com menos de 40 alunos. Ilário é professor há 21 anos da matéria de Geografia e ministrou suas últimas aulas em 2015,  ano em que, segundo ele, chegou a  dar aula para uma sala com 60 alunos.

 

 

Situação que se repete

 

De acordo com a resolução de 2004 que consta no site do Núcleo Regional de Educação, o ideal de distância de uma carteira para outra seria de um metro. A sala visitada pela equipe foi o 2º ano P, do Colégio Regente Feijó, que tinha 46 alunos matriculados à noite. 

 

 

Em 2011 a Secretaria de Educação publicou a Resolução 4527, a qual determina a distância mínima entre alunos de 1,20 metros, incluindo circulação e a área do professor. O documento também estabeleceu o mínimo de 35 e o máximo de 40 alunos por sala, dados diferentes dos recomendado pelo MEC. 

 

 

Para o professor do colégio Regente Feijó, Michel Floriano Bueno, a sala superlotada influencia no rendimento dos alunos, principalmente em matérias que demandam maior concentração, como a matemática.

 

 

A equipe de reportagem tentou várias vezes entrar em contato com o Núcleo Regional de Educação de Ponta Grossa, porém foram fornecidos dois endereços de e-mail que constavam como destinatários inexistentes e por telefone a assistente técnica, responsável pelo Órgão, Ivete Zarochinski, se recusou a responder nossas perguntas, afirmando que está deixando o cargo e portanto não poderia nos atender.  

 

 

Quem assumiu o cargo foi Carmen Lúcia de Souza Pinto, porém a equipe não conseguiu contato. Quem se posicionou a respeito da situação dos colégios, foi Nilza Mari Ribinski do setor do CERE. “ Não temos superlotação, em nenhuma sala. Nenhum aluno pode ficar sem escola, o colégio que tem menos é obrigado a matricular este aluno”. Em contrapartida, Carmem completa mencionando o caso de alguns colégios da região de Uvaranas, que precisam de novas salas, pois por conta do número de alunos, não estão conseguem desenvolver atividades.

 

 

Segundo um estudo realizado pela Revista Electrónica Iberoamericana sobre Calidad, Eficacia y Cambio en Educación. “Toda escola deve respeitar leis e regulamentos estabelecidos pelo sistema de ensino ao qual está vinculada. A influência das secretarias de educação é uma poderosa restrição ou oportunidade externa para a organização escolar”. O cenário apontado pelos diretores dos colégios visitados é de que o NRE prioriza a quantidade de alunos por turma e não a qualidade de ensino. 

 

 

Em que a lotação das salas interfere no aprendizado?

 

Segundo uma pesquisa realizada pelo o Instituto de Estudos Avançados da Audição, sobre a influência de ruídos sonoros na aprendizagem e percepção dos alunos, os estudantes que convivem em um ambiente escolar barulhento e com muitos ruídos tem dificuldades na percepção e compreensão do conteúdo e da própria fala do professor. A estudante do terceiro ano no Colégio Elzira, Patrícia Eduarda Santos, afirma que tem algumas dificuldades dentro de sala. “Além do calor excessivo, é muita gente junta e isso faz com que a sala fique muito barulhenta, então quando vem todo mundo fica difícil entender o que o professor fala”. 

 

 

A reclamação não se restringe apenas aos estudantes, mas também aos professores. A professora da disciplina de matemática Ana Claúdia Mores desabafa sobre as situações cotidianas. “São muitos alunos para pouco espaço, a gente não consegue se movimentar entre as carteiras. Em dia de prova, fica ainda mais complicado, pois tem que colocar alunos até na porta”. 

 

 

Quem também reclama da situação é a professora de física Jeanice Malvezzi. “Tem uma lei que determina que são 35 alunos por turma, mas é difícil lecionar em uma sala com tantos alunos, pois, a mesa do professor fica grudada no quadro. Já aconteceu de eu tropeçar no pé de aluno, por conta do espaço reduzido”. 

 

 

Pelo cenário atual, a situação vai permanecer por muito tempo, pois a falta de investimento do Governo, a falta de liberação para construção de novos colégios na cidade, são apenas alguns empecilhos para a mudança desse cenário em ambos os colégios.          

 

 

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os alunos do ensino fundamental que estudam nos colégios de Ponta Grossa tem nos anos iniciais uma média de 5,8. Já nos anos finais a média cai para, 4,3 (Dados de 2015). Vale ressaltar que na maioria dos colégios públicos de Ponta Grossa, a média para aprovação é 6,0. Em comparação com outras cidades do Estado, Ponta Grossa fica em 203° de 399° cidades em relação a média dos primeiros anos e em 175° de 399° nos anos finais.

 

 

De acordo com essa pesquisa realizada em 2015, em Ponta Grossa, o  número de matrículas no ensino fundamental era de 50.633 e no ensino médio essas matrículas caíram para 13.539, ou seja, 27% dos alunos que cursaram o ensino fundamental, não se matricularam no ensino médio.