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Falta e atraso de médicos, associados à baixa remuneração, são apontados como as causas das filas de espera que podem durar anos

 

Muitos pacientes, que vêm à Ponta Grossa em busca do serviço médico especializado do Sistema Único de Saúde (SUS), enfrentam problemas como a demora no atendimento e a falta de médicos. Segundo o secretário da Terceira Regional de Saúde de Ponta Grossa, Isaías Cantoia, o tempo para obter por uma consulta, para as pessoas que já se cadastraram na fila de espera, pode durar de meses a alguns anos.

 


O Governo do Estado oferece transporte para levar pacientes de cidades onde não há o atendimento especializado pelo SUS para os municípios que disponibilizam o serviço,  como é o caso de Ponta Grossa. As consultas são realizadas no Consórcio Intermunicipal de Saúde (Cimsaúde), no Hospital Santa Casa e no Hospital Universitário Regional dos Campos Gerais.

 


Alguns pacientes estão há mais de cinco anos esperando por atendimento. Outros optam pelo atendimento particular por causa da demora. É o caso de Irani Oliveira, professora aposentada de 69 anos da cidade de Castro.“Tive uma situação em que eu precisei de um médico cardiologista. Fui atendida no posto e encaminhada para a fila de espera, mas demorou muito tempo para eles agendarem”, relembra Irani. A aposentada queixa-se ainda de que “a fila de espera é enorme”. Apesar de ser um caso de urgência, Irani ainda aguardou por dois meses.  A professora afirma que, após esse tempo, foi obrigada a buscar atendimento na rede privada, uma vez que ela não havia conseguido agendamento pelo Consórcio Intermunicipal de Saúde (Cimsaúde).

 


Dona Elaine Santos Rieger, de 72 anos, residente em Castro, ficou por quase três anos na fila de espera para o atendimento em Ponta Grossa. Desde o final de 2015, ela aguardava para se consultar com um oftalmologista. “Somente agora [em agosto deste ano] eles me chamaram. É ruim a gente ser refém desse tipo de atendimento”, reclama. “Mas tô aqui, hoje, pra ver se vão me chamar ou se eu volto pra casa de novo sem ser atendida”, afirma.

 


 Para Gilmar Santos, aposentado de 68 anos e residente de Telêmaco Borba, além das filas, o deslocamento é outro grande empecilho enfrentado. Santos, que buscava atendimento endocrinológico, também queixa-se da demora e de que os pacientes, às vezes, voltam pra casa sem o atendimento, tendo que retornar no dia seguinte.

 


“Em Telêmaco, desde que eu fui à especialidade até me chamarem para ser atendido, demorou quase um mês. E, na minha cidade, só tem um médico endocrinologista e ele não atende pelo SUS. Então, ficamos refém do atendimento em outras cidades”, reclama.

 


Problema pode estar na baixa remuneração e no atraso dos médicos

 


De segunda a sexta-feira, chega a Ponta Grossa pelo menos um ônibus vindo de Ortigueira, Castro, Telêmaco Borba e Reserva. Em média, cada veículo traz de 20 a 30 pacientes para atendimento no Hospital Santa Casa, na Terceira Regional de Saúde, no Hospital Regional e no Cimsaúde. Quando os ônibus estão com lotação máxima, as prefeituras disponibilizam veículos menores para o transporte. O administrador do Consórcio, Luciano Camargo, explica que embora o número de pacientes varie, diariamente, a demanda é sempre alta. O número de atendimentos, segundo Camargo, gira em torno de 30 pessoas por dia.

 


 Há 8 anos, o motorista Valdecir dos Santos Gouveia faz o transporte de Ortigueira a Ponta Grossa. “Tem vezes que vem uns 15 passageiros, mas há dias em que pode vir dois ônibus e mais carro pequeno, porque só os ônibus não são suficientes para levar as pessoas. Porém, a quantidade varia”, conta Valdecir. Além da fila de espera, que pode durar anos, Gouveia ainda explica qu e problema enfrentado pelos pacientes enfrentam é a demora para serem atendidos no dia em que a consulta foi agendada. O motorista alega que isso é provocado pelo fato de que há médicos que vêm de Curitiba para atender as especialidades de Ponta Grossa e o deslocamento sempre acaba atrasando as consultas.“O horário que saímos das cidades é às 5 horas da manhã, mas não existe horário de retorno definitivo”, explica alegando que o atendimento é demorado e que, muitas vezes, o paciente mesmo tendo horário agendado não consegue a consulta por causa da demora.

 


O motorista faz a viagem todos os dias, de segunda a sexta, deixando pacientes nos diversos pontos de atendimento em Ponta Grossa. E, no sábado, ele leva os pacientes apenas para o Consórcio Intermunicipal de Saúde. “Nós levamos em todos os hospitais, até no Regional, onde o problema de demora é o maior de todos. Os pacientes esperam. Nunca são atendidos na hora e, muitas vezes, voltam pra casa sem a consulta. No outro dia, tentam de novo”, descreve.“Essas especialidades são de difícil acesso porque são poucos os serviços que oferecem pelo SUS essas consultas e esses exames, por ser pouco serviço, as filas são grandes por ser filas do estado todo.” Na Santa Casa, a média é de 923 pacientes atendidos, mensalmente, pelo SUS. O hospital conta apenas com 20 médicos das seguintes especialidades: Oncologia, Cardiologia, neurologia, vascular, cirurgia em geral e gestação de alto risco.

 

Já no Hospital Regional conta com especialistas de oito áreas: cirurgia geral, pediátrica, plástica, endocrinologia, ginecologia, neurologia, obstetrícia de alto risco e ortopedia. Os at endimentos no Cimsaúde contemplam oito áreas cardiologia, otorrino, dermatologista, endocrinologia, obstetrícia, psiquiatria, neurologia e oftalmologia.  De acordo com o secretário da Terceira Regional de Saúde, especialidades como  cardiologia e oftalmologia, que são as mais procuradas, demoram mais devido ao baixo número de médicos. Cantoia alega que há uma recusa, por parte dos médicos, em atender pelo SUS, pela baixa remuneração. Para o diretor, o problema se encontra na falta de médicos que aceitem atender pelo Sistema Único de Saúde. O Sindicato dos Médicos do Paraná (Simepar) não quis se manifestar a respeito.