WhatsApp Image 2021 02 26 at 9.19.07 AM 1

A 6ª Semana Social Brasileira, realizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), completa sete meses de atuação, no dia 28 de fevereiro. Com base nos apelos do Papa Francisco, as Igrejas de todo o país e, principalmente, de Ponta Grossa, buscam mobilizar a sociedade com o tema “Mutirão pela Vida – Por terra, teto e trabalho”. A ação acontece através de diálogos e materiais pedagógicos, que estão disponíveis em uma plataforma on-line para os participantes. O movimento cristão também conta com a colaboração de figuras inter-religiosas, com a intenção de assumir um papel político na sociedade.

   

    O número estimado de pessoas desempregadas neste ano ultrapassa 15 mil.

A integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Genecilda Gotardo concedeu entrevista ao programa Democracia e Direitos Humanos, produzido pela Agência de Jornalismo da UEPG e transmitido na Rádio Princesa. Na semana do Dia Internacional da Mulher, 8 de março, a entrevistada comentou sobre o Primeiro Encontro Nacional de Mulheres do MST.

Escute o primeiro programa:

 

Escute o segundo programa:

 

Ficha Técnica:

Produção, Edição e Apresentação: Luiz Zak
Apoio Técnico: Reinaldo Santos e Jairo Souza
Supervisão: Hebe Gonçalves e Angela Aguiar
Produção: Agência de Jornalismo da UEPG
Veiculação: Rádio Comunitária Princesa

Pesquisa do IBGE mostra que 18,8% dos paranaenses estão na classe econômica mais baixa, enquanto apenas 2,6% estão na mais rica | Foto: Marcella Panzarini

A vendedora ambulante Raiza Cássia Motta, 55 anos, trabalha vendendo pipoca e algodão doce em Ponta Grossa há 15 anos. Raiza acorda às 7h, limpa a casa que mora no bairro de Uvaranas e depois de almoçar, ao redor das 12h, pega ônibus e vai até o calçadão, onde trabalha até as 19h. Ela e suas filhas sempre estudaram em escola pública e ninguém da família teve a oportunidade de fazer faculdade. Ao ser perguntada sobre sua renda mensal, Motta respondeu: “A gente vende pra comer, se não vender não come”.

A família Motta faz parte dos 18,8% das famílias paranaenses que estão na classe econômica mais pobre do estado, vivendo com até dois salários mínimos por mês. A Pesquisa Orçamentária Familiar (POF), divulgada em outubro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra também que 18,1% do total de 3.961.208 famílias do Paraná, vivem com dois a três salários mínimos por mês. Já a maior parte das famílias, 32,1% delas, vive com três a seis salários mínimos mensais. Enquanto 16,3% vivem com seis a 10 salários mínimos; 7,8% vivem com 10 a 15 salários mínimos; 4,3%, com 15 a 25 salários mínimos; e 2,6%, com mais de 25 salários mínimos.

Graduado em Ciências Sociais e, atualmente, mestrando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Tiago Borges afirma que a desigualdade social é uma característica do capitalismo mundial. “Várias pessoas produzem, muitas não têm emprego e a grande minoria lucra enquanto não precisa fazer o trabalho duro”, completa. Borges ainda afirma que a desigualdade social no Brasil e no Paraná tem aumentado desde 2017.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) do IBGE mostra que houve um aumento de 8,4% na renda das pessoas mais ricas e queda nos ganhos das classes que formam os 30% mais pobres.

desigualdadeA 17 12 19

Ao oposto da realidade de Raiza, Roberta (nome fictício), 44 anos, engenheira química, natural de Ponta Grossa, faz parte das 6,9% famílias mais ricas do Paraná, ganhando mais que 15 salários mínimos por mês. Roberta conta que nunca ficou desempregada. “Sempre tive muita sorte. Saí da faculdade com emprego, no qual fiquei seis meses. Depois fui para uma empresa, na qual fiquei mais de 20 anos. Quando saí de lá, já consegui um trabalho na hotelaria dos meus pais”, destaca.

A pesquisa do IBGE também mostra que a classe social a qual Raiza pertence gasta cerca de R$17,51 por mês em educação, enquanto a classe social de Roberta gasta cerca de R$566,90 por mês para a mesma área. Para uma pessoa da classe de Raiza atingir o gasto por mês de uma pessoa da classe de Roberta, ela levaria cerca de dois anos e nove meses.

A pesquisa também mostra que o que as duas classes mais ricas (6,9% do Paraná), ou seja, famílias que recebem de 15 a 25 salários mínimos mensais, e mais de 25 salários mínimos mensais, gastam por mês em recreação e cultura é mais do que o restante do Paraná (93,1%) gasta – em conjunto – em dois meses e meio com recreação e cultura.

desigualdadeD 17 12 19

Diferente do caso de Roberta, a estudante de serviço Social Evelyn de Souza cursa sua primeira graduação aos 28 anos, já com duas filhas, uma de três anos e outra de nove, Evelyn começou no trabalho informal desde cedo. “Trabalhei informalmente com meu tio em um lava car com 15 anos. Depois num salão de beleza. Quando concluí meu curso técnico, trabalhei numa protética. No último emprego que tive, foi auxiliar administrativa de um mercado da cidade”, conta.

Atualmente, a estudante acorda às 5h30, deixa o café da manhã e o almoço prontos para a família, arruma os materiais escolares de suas filhas – a mais nova que frequenta o Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) e a mais velha uma escola pública. Depois de arrumar as crianças, tomam café. O esposo leva as crianças para escola e vai para o trabalho. Enquanto isso, Souza pega ônibus às 7h45 para chegar na UEPG centro perto das 8h10, cinco minutos antes do início das aulas. Almoça no Restaurante Universitário e, à tarde, realiza as atividades da faculdade.

No retorno para casa, vai a pé até o terminal central pegar o ônibus, para não perder tempo no horário de busca das crianças na escola. Mas ela conta que, em algumas situações, tem de pedir ajuda de familiares para buscar as filhas nas escolas. O marido, operador de máquinas, faz alguns ‘bicos’ para completar a renda da família, que é de dois a três salários mínimos mensais.

“Estabilidade [econômica] pra mim é uma coisa bem difícil de ser alcançada”, afirma profissional

Segundo pesquisa do IBGE, os jovens entre 15 e 29 anos são os mais afetados pela desigualdade sócia. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), divulgados em outubro de 2019, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) trazem números que ilustram a desigualdade social no Brasil. As estatísticas indicam que 1% da população brasileira recebe 33,8 vezes mais que 50%.

O rendimento médio mensal do trabalho desses 1% foi quase 34 vezes maior que dos 50% mais pobres, em 2018. Paralelamente à esses números observa-se também o aumento no número de profissionais sem registro e informais, na faixa dos mais pobres, enquanto os mais ricos continuam tendo lucro.

A jornalista, formada pela UEPG, Camila Delgado, 30 anos, trabalha como pessoa jurídica para uma revista da cidade e também faz freelance de marketing, depois de um ano e meia desempregada. Ela voltou para a cidade em 2015 e depende do SUS. Como pessoa jurídica, recebe por edição de revista publicada. Sua rotina começa às 9h, quando vai para a redação da revista, onde fica até as 18h. Dependendo da quantidade de trabalho para empresas de publicidade, chega a ficar escrevendo até às 01h após retornar do trabalho na revista.

“Estabilidade [econômica] pra mim é uma coisa bem difícil de ser alcançada, ainda mais nesse sistema”, desabafa Delgado. Ela é só mais uma dos 41,4% dos trabalhadores informais, no Brasil, de acordo com o PNADC. Como Delgado é uma pessoa jurídica e recebe apenas por revistas publicadas, em janeiro não terá salário, pois o local entra em férias e só volta a produzir em fevereiro.

O revendedor de lingeries, Marcio Soares de Agustinho, de 39 anos, trabalha com vendas há oito anos, mas desde os 12 trabalha para ajudar a família. “Comecei a trabalhar limpando jardim e depois em oficinas e dessa maneira o estudo sempre foi ficando em segundo plano, até que, em 2001, consegui um trabalho com vendas e hoje, o estudo voltou a ser um dos focos”, conta Agustinho, que cursa o segundo ano de Serviço Social na UEPG.

Além do trabalho como revendedor de lingerie e da faculdade, Agustinho participa do Diretório Central de Estudantes da UEPG (DCE) e de um projeto de extensão do curso de Serviço Social. No tempo livre, ainda trabalha como motorista de aplicativo para complementar a renda familiar. A família de Agustinho se enquadra na classe social do IBGE que recebe de três à seis salários mínimos.

De acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) Social a partir dos dados do PNAD/IBGE. Os jovens, de 15 a 24, são a faixa etária que mais perdeu na crise. Entre 2014 e 2019, os jovens de 20 a 24 anos, perderam cerca de 20% da renda, enquanto a faixa etária de 15 à 19 anos, perderam cerca de 30%. “Hoje é muito mais difícil de se manter que nos anos 80 e 90. Você tendo uma formação já tinha mais oportunidade e uma estabilidade maior, hoje ter faculdade é o mínimo para o mercado” afirma Delgado.

desigualdadeC 17 12 19

Em meio à crise, uma das alternativas dos jovens, foi continuarem na casa dos pais por mais tempo, é o que mostra a pesquisa do IBGE, 1 a cada 4 pessoas, entre 25 e 34 anos, ainda mora com seus pais, o que é ocasionado geralmente por fatores econômicos.

Mas isso não é o caso de João (nome fictício), que precisou sair de casa aos 15. Atualmente desempregado, trabalha com bicos. “Teve tempo que fiz muitas coisas juntas, antes do meu primeiro emprego com carteira assinada foi o período mais difícil”, afirma. João já arrumou computadores, fez pintura prostática, trabalhou em escritórios, na parte financeira, no atendimento em farmácias e hoje faz bico em um sebo.

A pesquisa da FGV/Social ainda mostra que a população sem instrução perdeu 10% da renda em comparação a 2014; a população jovem, de 25 a 29 anos, e chefes de família perdeu 10% enquanto a média geral da população perdeu menos de 5%.

Ouça a reportagem em áudio:

Ficha Técnica:
Produção: Amanda Gongra e Emanuelle Salatini
Edição: João Paulo Pacheco e Marcus Benedetti
Fotografia: Marcella Panzarini
Infografia: 
Denise Martins e Emanuelle Salatini
Supervisão:
Professores Angela Aguiar, Ben-Hur Demenek, Fernanda Cavassana, Hebe Gonçalves, Manoel Moabis e Rafael Kondlastch
Apoio técnico: Reinaldo Santos

Segundo o IBGE 11,5 mil ponta-grossensse não sabem ler e escrever | Foto: Nadini Sansana.

De acordo com o IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, entre 2016 e 2018 o analfabetismo no Paraná aumentou 13%, sendo o índice mais alto do país em números absolutos.