Embora o Hospital Regional seja o único a realizar parto humanizado em Ponta Grossa, nem todos os direitos da mãe são garantidos


“Começaram a me sugerir, faz assim, faz assado e não me deixaram fazer aquilo que meu corpo estava pedindo. Eu queria voltar para a água, mas não deixaram. Depois, o obstetra chegou e foi toque atrás de toque, muitos toques vaginais e isso me incomodou muito. Mas a questão principal foi com o recém-nascido, quando o Miguel nasceu”, declara a professora Aline Fevereiro lembrando-se que o filho foi submetido ao “kit terror”.

 

 

Mãe de quatro filhos, Aline descreve que a contratação de um pediatra humanizado teria impedido que o bebê fosse submetido ao “kit terror”. Aline relata que o filho foi submetido ao procedimento que, embora não seja recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), é padrão nas maternidades brasileiras. Segundo a mãe, o “kit terror” é aspirar as vias aéreas do bebê, causando desconforto, e separar a mãe da criança, que é colocada em berçário.

 

O relato da professora reflete problemas enfrentados por muitas gestantes brasileiras. Segundo um estudo da Fundação Perseu Abramo realizado em parceria com o Serviço Social do Comércio (SESC), em 2010, uma a cada quatro mulheres sofreu algum tipo de violência obstétrica no Brasil.

 

 

O parto humanizado, realizado na residência da gestante, é uma saída para evitar o problema. É o caso de Aline que, após a experiência traumática no nascimento do primeiro filho, optou pelo procedimento nas três gestações posteriores. Queixando-se da privação dos direitos negados no hospital, Aline afirma que, se tivesse optado pelo parto domiciliar na primeira gravidez, teria tido liberdade para realizar o parto em seu tempo.

 

 

Em Ponta Grossa, o parto domiciliar é uma alternativa à falta de estrutura adequada para a realização do parto humanizado na rede hospitalar. A médica obstetra Valdineia Xavier aponta que o problema afeta tanto a rede pública como a privada.

 

 

Xavier destaca que o Hospital Universitário Regional dos Campos Gerais, que possui a maior maternidade da cidade, já realiza mais partos humanizados, mas nem todos os direitos e procedimentos são respeitados. Segundo a médica, por não terem seus direitos preservados nos hospitais, as gestantes estão buscando maneiras alternativas para o nascimento dos filhos. Uma dessas alternativas é a realização do parto domiciliar, feito na própria residência das gestantes.

 

 

Violência obstétrica desrespeita direitos da mãe e da criança

Valdineia Xavier descreve que a violência obstétrica é toda intervenção sofrida pela mulher, que, muitas vezes, não é necessária, como a tricotomia e episiotomia de rotina. Na avaliação da médica, esses procedimentos não afetam o andamento do parto e não oferecem riscos à saúde da mulher e da criança.

 

 

A médica complementa que a violência obstétrica pode ocorrer através de agressão verbal, da negação do direito de acompanhante e de atendimento no hospital, além da restrição do leito à mulher ou do impedimento da gestante de escolher a posição do parto.

 

 

Embora a gestante tenha o direito de montar um plano de parto, o documento muitas vezes é desrespeitado pelas maternidades. O plano “é uma lista, feita pela mulher ou por um profissional junto com a gestante, onde estará tudo descrito, o que ela gostaria que acontecesse no parto e aquilo que ela não gostaria”, descreve a médica.

 

 

Segundo a enfermeira do Hospital Universitário Regional e professora do curso de Enfermagem do Colégio Elzira, Ana Cláudia da Silva Olenik, para evitar a violência obstétrica, é necessário diminuir os processos invasivos, desconfortáveis e desnecessários realizados nas gestantes. Embora sejam rotineiras, essas condutas, na avaliação de Ana Cláudia, “não vão melhorar ou minimizar riscos durante o trabalho de parto”.

 

 

No Paraná, a orientação para a mudança de conduta já está prevista na Lei 184/2015 que trata da humanização de partos. A mudança, com a incorporação das práticas humanizadas, implica em um preparo e conscientização da equipe médica e das mães. “O que nós vemos são prescrições médicas que são cumpridas sem perguntar para a paciente se ela realmente deseja passar pelos procedimentos”, critica a enfermeira. “Falta esclarecimento da mulher, da equipe em relação à palavra humanização em qualquer situação”, avalia.

Violência obstétrica infografico ana flavia

 

Parto humanizado permite protagonismo da gestante

A humanização do parto não consiste apenas na escolha do tipo de parto que será realizado, se natural ou cesárea, mas sim por um cuidado maior com a mulher e com a família da gestante. Ana Cláudia explica que a humanização se dá na forma de acolhimento.

 

 

A enfermeira afirma que isso significa colocar a mulher “a par de situações que vão se apresentando durante o trabalho de parto, para que ela, como a principal protagonista da ação possa estar ciente da situação que está acontecendo e também tenha o direito de opinar, se ela está favorável ou não a determinado procedimento”.

 

 

Segundo a cartilha “Humanização do parto. nasce o respeito. Informações práticas sobre seus direitos”, publicada em 2015 pelo Ministério Público de Pernambuco, a humanização “está focada no respeito às escolhas das mulheres, no direito de atendimento digno, respeitoso e sem qualquer tipo de violência”. Ainda segundo o material educativo, os direitos de parto humanizado devem ser respeitados em qualquer local, seja em um hospital público, privado ou na residência da mulher. Parto domiciliar não é sinônimo de falta de rigor técnico.

 

 

Embora realizado na casa da gestante, o parto domiciliar conta com um grupo de profissionais - uma doula, uma parteira, um médico obstetra e um pediatra - especializados em partos humanizados. A equipe acompanha todas as etapas da gravidez junto à mulher. Aline Fevereiro conta que, nos três partos domiciliares, pôde ter a presença da família. A mãe avalia que, nesse tipo de procedimento, é respeitado o tempo do corpo da mulher, ou seja, não há a interferência ou antecipação da equipe profissional para acelerar o processo de trabalho de parto.

 

 

A professora, que vivenciou o parto hospitalar e o parto domiciliar, relata as principais as vantagens da experiência vivência na própria residência. “[No parto humanizado], a gente chama a equipe quando a gente acha que deve”, aponta destacando que é, a partir daí, que começa uma comunicação entre a mãe e a equipe. “Quando eles acham que devem vir, eles vêm e é outro esquema. O toque vaginal é um durante todo o trabalho de parto”, afirma.

 

 

Outra diferença está no respeito à forma de ausculta fetal tal como recomendada da Organização Mundial da Saúde (OMS). “A ausculta fetal em trabalho de parto ativo deve ser feita a cada meia hora e, no hospital, eles não fazem isso”, critica.

 

 

Em relação à escolha do parto domiciliar, Aline Fevereiro comenta que a decisão não foi influenciada somente pelas características do parto em si, mas também pelo momento imediato ao parto. “O bebê fica perto o tempo todo e o exame feito no recém-nascido, logo após o nascimento, é realizado no colo da mãe”.

 

 

A liberdade é outro diferencial. “Você tem liberdade total para fazer o que você quiser e ter seu filho no lugar e do jeito que você desejar. É liberdade total e absoluta”, declara. Segundo a professora, apesar da grande liberdade, não faltam preparação e rigor técnico. “Você tem prontuário e tudo mais, tudo muito certinho”, ressalta.