O Vestibular dos Povos Indígenas no Paraná, organizado este ano pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), concluiu a 18° edição no último domingo e na segunda-feira (21 e 22). A prova foi em Faxinal do Céu, distrito de Pinhão, que fica a 79 quilômetros de Guarapuava. Os vestibulandos concorrem a vagas nas sete universidades estaduais e na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

 

“O que eu notei é que estávamos entre pessoas com muita coletividade e resistência”, conta Gabriel Miguel Costa, estudante de Jornalismo na UEPG e extensionista responsável pela cobertura do evento. “Tem uma questão comunitária forte neste vestibular”, explica. Costa ouviu em entrevistas como muitos candidatos querem estudar para retornar às suas terras e ajudar a comunidade. “Importante notar que as universidades só estão cumprindo com a lei”, lembra. As universidades do Paraná organizam as provas numa espécie de rodízio e neste ano a responsável foi a UEPG.

 

“As demandas das causas indígenas andam bem ameaçadas, ainda mais nas questões de terra”, conta José Galdino, membro da Comissão Universidade para os Índios (CUIA-UEPG). De acordo com o membro da organização, o vestibular este ano atendeu participantes provenientes de 14 estados e 72 etnias indígenas, num total de 852 participantes.

 

A Coordenação de Processos de Seleção (CPS) divulgou o gabarito oficial na terça-feira. O resultado deve sair até o dia 30 de novembro.

Após cortes no programa Mais Educação, escolas perdem opção de ofertar disciplinas de Arte, Lazer, Cultura e Esportes. Confira na reportagem:

Nesta quinta-feira 30 de agosto, completa 30 anos da ação policial que reprimiu professores do Estado do Paraná. Confira no vídeo:

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Sala do segundo ano do colégio Elzira, com 37 alunos. Foto: Ana Flávia Aranna

 

Numa quarta-feira pela manhã, um aluno levanta a mão e pede ajuda para a professora de matemática. Ela tenta, mas não consegue chegar até ele, pois a aglomeração de carteiras a impede. Ao lado, um grupo de estudantes conversa e ri alto, enquanto outros tentam se concentrar na explicação da aula e em suas atividades. 

 

 

A sala pequena e as paredes de madeira deixam o ambiente quente e faz com que os 40 alunos e a professora fiquem desconfortáveis. “Os professores de filosofia e português dão aula fora da sala por causa do calor”, conta Jennyfer Oliveira, estudante do terceiro ano do ensino médio no Colégio Elzira Correia de Sá. A situação reflete o cotidiano não de um, mas de vários colégios estaduais de Ponta Grossa. 

 

 

Situação dos Colégios

 

O Colégio Elzira Correia de Sá, localizado na vila Santa Paula, é o maior colégio estadual da cidade, com 2200 alunos matriculados em três turnos. Nos períodos da manhã e da tarde são 22 turmas, e a noite há 20. Além dos alunos matriculados, a lista de espera é grande - segundo a direção, cerca de 300 estudantes esperam uma vaga no ensino médio.

 

 

O diretor do colégio Vagner Guedes explica que houve um crescimento na região e muitos conjuntos habitacionais foram construídos ao redor da escola. “A Prefeitura constrói escolas nos bairros quando surgem bairros novos, já o Estado não constrói as escolas”. Segundo Guedes, os alunos saem de escolas do fundamental 1 e lotam as escolas que possuem o fundamental 2. Ponta Grossa possui 155 escolas de ensino fundamental e apenas 47 escolas ensino médio. 

 

 

Cada turma de ensino fundamental tem cerca de 35 alunos e no ensino médio são 40 alunos, mas no período da noite há uma sala com 50 alunos. “Todo ano abriam duas turmas de primeiro ano no turno da noite, cada uma com cerca de 35 alunos, chegava o final do ano cada turma tinha 10, 15 alunos porque a maioria desistia”, afirma o diretor do colégio Vagner Guedes. Devido às desistências, o Núcleo de Educação não permite mais a abertura de duas turmas. “Mesmo com o excesso de alunos eles não permitiram que a gente abrisse outra turma”, relata.

 

 

A recomendação do Ministério da Educação (MEC) é de que as turmas do ensino fundamental tenham uma média de 25 a 30 alunos e o ensino médio tenham no máximo de 30 alunos por classe.  Já  a determinação do Núcleo Regional de Educação (NRE) é de que as salas devem ter no mínimo 30 alunos. Segundo Guedes, no caso de duas salas de aula com 29 alunos, o núcleo aprova a abertura de apenas uma turma, mesmo que contenha 58 alunos. 

 

 
Sala do segundo ano do colégio Elzira com divisória de madeira. Foto: Ana Flávia Aranna

 

Para tentar conter a superlotação, o Estado aumentou o número de turmas no Colégio José Gomes, que funcionam no período da noite. “Por causa da demanda, montaram então o ensino médio noturno no Colégio José Gomes na Santa Terezinha, só que dependendo da idade das crianças os pais não querem, e de dia não tem”. O turno da manhã do Colégio Elzira, por exemplo, continua com a mesma demanda de alunos. 

 

 

Outro colégio que vive situação semelhante, é o Regente Feijó. O Colégio possui atualmente 2.071 alunos matriculados nos três turnos. No período matutino são 20 salas, divididas entre segundo e terceiro ano do ensino médio, e a tarde são 23 salas. A média de alunos por turma varia de 36 a 40. 

 

 

A secretária Daniele Flores diz que o colégio não possui lista de espera, mas cerca de 30 alunos a cada semana vão tentar uma vaga. “Nós optamos por não fazer lista de espera, para não privilegiar alguns estudantes, então quem chegar primeiro, ganha a vaga. Ela completa dizendo que “É como uma loteria, é sorte”.  

 

 

A diretora Mara Regina de Castro do período matutino explica que, por estar localizado na região central e ser um prédio histórico, não há possibilidades de ampliar o colégio. 

 

 

O diretor do período noturno Ilário Valmor Waldman explica que para 2018 veio uma resolução do NRE para o colégio Regente que o proíbe de abrir uma sala com menos de 40 alunos. Ilário é professor há 21 anos da matéria de Geografia e ministrou suas últimas aulas em 2015,  ano em que, segundo ele, chegou a  dar aula para uma sala com 60 alunos.

 

 

Situação que se repete

 

De acordo com a resolução de 2004 que consta no site do Núcleo Regional de Educação, o ideal de distância de uma carteira para outra seria de um metro. A sala visitada pela equipe foi o 2º ano P, do Colégio Regente Feijó, que tinha 46 alunos matriculados à noite. 

 

 

Em 2011 a Secretaria de Educação publicou a Resolução 4527, a qual determina a distância mínima entre alunos de 1,20 metros, incluindo circulação e a área do professor. O documento também estabeleceu o mínimo de 35 e o máximo de 40 alunos por sala, dados diferentes dos recomendado pelo MEC. 

 

 

Para o professor do colégio Regente Feijó, Michel Floriano Bueno, a sala superlotada influencia no rendimento dos alunos, principalmente em matérias que demandam maior concentração, como a matemática.

 

 

A equipe de reportagem tentou várias vezes entrar em contato com o Núcleo Regional de Educação de Ponta Grossa, porém foram fornecidos dois endereços de e-mail que constavam como destinatários inexistentes e por telefone a assistente técnica, responsável pelo Órgão, Ivete Zarochinski, se recusou a responder nossas perguntas, afirmando que está deixando o cargo e portanto não poderia nos atender.  

 

 

Quem assumiu o cargo foi Carmen Lúcia de Souza Pinto, porém a equipe não conseguiu contato. Quem se posicionou a respeito da situação dos colégios, foi Nilza Mari Ribinski do setor do CERE. “ Não temos superlotação, em nenhuma sala. Nenhum aluno pode ficar sem escola, o colégio que tem menos é obrigado a matricular este aluno”. Em contrapartida, Carmem completa mencionando o caso de alguns colégios da região de Uvaranas, que precisam de novas salas, pois por conta do número de alunos, não estão conseguem desenvolver atividades.

 

 

Segundo um estudo realizado pela Revista Electrónica Iberoamericana sobre Calidad, Eficacia y Cambio en Educación. “Toda escola deve respeitar leis e regulamentos estabelecidos pelo sistema de ensino ao qual está vinculada. A influência das secretarias de educação é uma poderosa restrição ou oportunidade externa para a organização escolar”. O cenário apontado pelos diretores dos colégios visitados é de que o NRE prioriza a quantidade de alunos por turma e não a qualidade de ensino. 

 

 

Em que a lotação das salas interfere no aprendizado?

 

Segundo uma pesquisa realizada pelo o Instituto de Estudos Avançados da Audição, sobre a influência de ruídos sonoros na aprendizagem e percepção dos alunos, os estudantes que convivem em um ambiente escolar barulhento e com muitos ruídos tem dificuldades na percepção e compreensão do conteúdo e da própria fala do professor. A estudante do terceiro ano no Colégio Elzira, Patrícia Eduarda Santos, afirma que tem algumas dificuldades dentro de sala. “Além do calor excessivo, é muita gente junta e isso faz com que a sala fique muito barulhenta, então quando vem todo mundo fica difícil entender o que o professor fala”. 

 

 

A reclamação não se restringe apenas aos estudantes, mas também aos professores. A professora da disciplina de matemática Ana Claúdia Mores desabafa sobre as situações cotidianas. “São muitos alunos para pouco espaço, a gente não consegue se movimentar entre as carteiras. Em dia de prova, fica ainda mais complicado, pois tem que colocar alunos até na porta”. 

 

 

Quem também reclama da situação é a professora de física Jeanice Malvezzi. “Tem uma lei que determina que são 35 alunos por turma, mas é difícil lecionar em uma sala com tantos alunos, pois, a mesa do professor fica grudada no quadro. Já aconteceu de eu tropeçar no pé de aluno, por conta do espaço reduzido”. 

 

 

Pelo cenário atual, a situação vai permanecer por muito tempo, pois a falta de investimento do Governo, a falta de liberação para construção de novos colégios na cidade, são apenas alguns empecilhos para a mudança desse cenário em ambos os colégios.          

 

 

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os alunos do ensino fundamental que estudam nos colégios de Ponta Grossa tem nos anos iniciais uma média de 5,8. Já nos anos finais a média cai para, 4,3 (Dados de 2015). Vale ressaltar que na maioria dos colégios públicos de Ponta Grossa, a média para aprovação é 6,0. Em comparação com outras cidades do Estado, Ponta Grossa fica em 203° de 399° cidades em relação a média dos primeiros anos e em 175° de 399° nos anos finais.

 

 

De acordo com essa pesquisa realizada em 2015, em Ponta Grossa, o  número de matrículas no ensino fundamental era de 50.633 e no ensino médio essas matrículas caíram para 13.539, ou seja, 27% dos alunos que cursaram o ensino fundamental, não se matricularam no ensino médio.

 O projeto EJA pretende diminuir essa estatística, mas conta apenas com 5 turmas.

 No Brasil ainda existem 11,8 milhões de analfabetos, o que condiz a 5,68% da população, segundo dados de 2017 do  IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), O número é maior que o total de habitantes do estado do Paraná, que corresponde a 11,3 milhões de habitantes.

 Em Ponta Grossa esta realidade não é diferente. Segundo dados do último Censo Demográfico do IBGE feito em 2010, aproximadamente 11,5 mil ponta-grossenses não sabem ler e escrever.

 De acordo com o IBGE, para ser considerado analfabeto, o indivíduo deve ter 15 anos ou mais e declarar-se incapaz de ler e escrever um bilhete simples ou assinar apenas o próprio nome. Também encaixa-se à categoria aqueles que aprenderam a ler mas esqueceram. Os índices de analfabetismo na cidade são altos, porém a procura pela alfabetização é baixa.

 

 

 

Com o objetivo de diminuir essas estatísticas, o município aderiu em meados de 1990, a EJA (Educação para Jovens e Adultos), projeto federal elaborado com o objetivo de desenvolver o ensino fundamental e médio gratuito para pessoas que não possuem escolaridade.

 De acordo com a chefe da coordenação da EJA, Perla Cristiane Enviy, a maior procura é de pessoas com cerca de 40 anos com o objetivo de “conseguir um emprego com carteira assinada”, explica. Perla ainda esclarece que “alguns vem para poder fazer a prova da Carteira de Motorista, outros frequentam, porque são beneficiários do INSS e há aqueles que vem para cumprir pena judicial”, esclarece. Perla ainda complementa que geralmente estas pessoas param de estudar quando criança, para poder ajudar em casa, trabalhando desde cedo.

 A professora Enese Fabrício trabalha com a EJA desde 2014, e explica que o método como o conteúdo deve ser trabalhado, é diferente de como se alfabetiza uma criança, pois a criança está construindo sua base de conhecimento. Já o adulto chega com este conhecimento de mundo construído. “A diferença é que você precisa trabalhar a partir deste conhecimento já adquirido com o adulto”, explica a professora.

 A EJA atende alunos a partir de 15 anos. Overli Henrique Franke, tem 73 anos é o aluno mais velho da turma da professora Enese. “Voltei  a estudar após 65 anos parado, depois que entrei, minha vida mudou”, declara o estudante.

  Josineia da Silva Pinto, de 33 anos, também é estudante da EJA e explica que sentiu necessidade em voltar a estudar, quando precisou ajudar os filhos com a tarefa da escola, “eu me sentia constrangida de não saber ajudar eles, me sentia perdida em algumas tarefinhas deles”, justifica Josineia.

 Para a professora Enese a maior dificuldade dos alunos está na assimilação de conteúdos “eles não conseguem gravar. Mas também, com uma jornada de trabalho de 8 horas, filhos, família, dívidas, compromissos, para manter é difícil [...] Também sentem dificuldade pelo tempo em que estão sem estudar”, esclarece a professora.

 Quando o aluno já está apto a ler e escrever, deve passar por uma prova aplicada pela prefeitura duas vezes ao ano – uma em junho e outra em dezembro - , assim comprovar que concluiu o Fundamental I e passará a estudar no CEEBEJA ( Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos) caso queira continuar os estudos.

 Para realizar esta prova, não precisa estar matriculado na EJA. Chefe da coordenação da EJA expõe que dos 100 alunos realizam esta prova  cerca de 76 são aprovados. “Nos últimos 5 anos certificamos cerca de 600 pessoas”, ressalta Perla.

 As classes da EJA são multisseriadas e as matrículas acontecem diariamente em todas as escolas municipais. Caso a matrícula seja feita em uma escola que não faz parte do projeto, o aluno é encaminhado para a que for mais próxima.

 Analfabetos PG JUN 2018