Índice se refere ao período de maio a junho deste ano

Nos últimos três meses, entre maio e junho de 2021, o total de vítimas da Covid-19 em Ponta Grossa com idades entre 18 e 59 anos quase dobrou, passando de 46 para 86. Do início da pandemia até o mês passado, foram 1.115 mortos na cidade. O aumento inverte a tendência de queda dos três primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período do ano passado, quando as vítimas maiores de 60 anos caíram de 334 para 217.

Entre os mortos estão o avô de Jéssica Cardoso, estudante de enfermagem, Efrain Cardoso, e seu pai, Orlei Cardoso. Segundo ela, foi difícil superar duas perdas tão rapidamente. “Fico indignada ao ver pessoas morrendo de uma doença para a qual já se tem vacina”.

De acordo com a psicóloga Juliana de Godoy, as mortes podem afetar a saúde mental de parentes das vítimas e das demais pessoas da população. “Os efeitos psíquicos dessas mortes podem ser sentimento de medo, desamparo e vulnerabilidade, depressão, ansiedade, transtorno obsessivo compulsivo e transtorno do estresse pós-traumático”, enumera a psicóloga. 

Foto: Fernanda Roccio / Arquivo Lente Quente

Campanha de vacinação contra Covid-19 em Ponta Grossa avança de acordo com o repasse pelo Governo Estadual. O número de doses aplicadas teve aumento superior a 89% entre maio e julho.

 

 

Ficha técnica:

Repórter e editor: João Gabriel Vieira 

Publicação: Deborah Kuki e Larissa Godoi

Supervisão: Marizandra Rutilli, Marcos Zibord e Maurício Liesen

Segundo prefeitura, de março de 2020 a julho de 2021 foram 991 registros

 

Com média de 91 casos por mês, a prefeitura de Ponta Grossa informa que, de março do ano passado até 7 de julho deste ano, foram 991 casos de Covid-19 - 459 na faixa de zero a quatro anos, e 532 entre cinco e nove anos. Nenhuma morte foi registrada. 

 

cmei petronio fernal Assessoria da prefeitura Rafael K

Foto: Assessoria da Prefeitura Municipal de Ponta Grossa

 

No Paraná, de acordo com a Secretaria Estadual da Saúde (SESA), de março de 2020 a junho de 2021 foram registrados 38.548 casos de coronavírus na faixa de zero a nove anos. Em 2020 foi registrado um óbito e em 2021 foram 17, segundo informações da SESA.

No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, até maio deste ano, mais de 2 mil crianças de zero a nove anos morreram por causa da doença no Brasil, o que representa 400 casos por mês. No total 1,3 mil eram bebês com menos de um ano de idade.

Na comparação com adultos, crianças e adolescentes são menos infectados pela covid-19, dizem os médicos Marco Aurélio Palazzi Sáfadi e Clovis Artur Almeida da Silva. No artigo “O Espectro Desafiador e Imprevisível da Covid-19 em Crianças e Adolescentes”, publicado na Revista Brasileira de Pediatria, eles afirmam que os casos neste público podem variar de assintomáticos a graves, e que nos casos leves febre e tosse são os sintomas mais comuns.

  

Drama familiar

A Covid-19 angustia famílias, como a da estudante de psicologia Larissa Barros, 21, moradora de Ponta Grossa. O irmão mais novo dela, Anthony, de três anos, teve a doença.

Larissa suspeita que o irmão tenha sido contaminado pela mãe deles, que tem 41 anos, trabalha como enfermeira e foi infectada pelo vírus. Segundo a estudante, Anthony teve sintomas leves, como febre e dor de garganta. Ele já está curado.

Durante os sintomas, Anthony queria ficar perto da mãe porque é muito apegado a ela. Mas ela foi a que mais se debilitou por conta da doença. Larissa descreve a separação forçada entre o irmão e a mãe como uma experiência “muito triste”.

 

Ficha técnica

Reportagem: Maria Eduarda Eurich

Edição e Revisão: João Gabriel Vieira, Marcella Panzarini

Publicação: Gabriel Clarindo Neto

Supervisão: Jeferson Bertolini, Marcos Zibordi, Maurício Liesen

 

Confira o comentário em vídeo de Kauana Neitzel, e logo em seguida a versão em texto.

 

 

 

A vacinação contra o vírus da covid-19 segue de maneira tortuosa no país: com aplicações de segundas doses sendo adiadas, pessoas que não estão nos grupos de prioridade sendo vacinadas, doses estragando por falta de cuidados são alguns dos problemas. Inclusive, existem até casos de pessoas que deveriam estar na lista de prioridade para receber a vacina, mas ficaram de fora do Plano Nacional de Imunização do Ministério da Saúde. Alguns exemplos seriam cuidadores de idosos, e estudantes de enfermagem da Universidade Estadual de Ponta Grossa, que estagiam em Unidades Básicas de Saúde, e maternidades de hospitais. Parece ser algo simples que cuidadores de idosos, e que estudantes da área de saúde, que não sejam de medicina, odontologia e farmácia, que inclusive já foram vacinados, deveriam receber o imunizante, mas parece fugir aos olhos de quem tomam as decisões referentes a distribuição das doses.

Quando questionados, ambos os grupos apontaram pela necessidade de serem imunizados para conseguirem cumprir seus deveres. Para os estudantes, a culpa de não terem recebido doses da vacina seria da coordenação de seus cursos, que demoraram para efetuar as solicitações, e para os cuidadores de idosos, a questão está mais ligada a falta de um órgão representante da profissão. Apesar disso, eles também colocam a responsabilidade no governo federal.

No Brasil, até o dia 03 de maio, 31.875.681 pessoas receberam a primeira dose, 15.869.985 pessoas receberam a segunda. Com um processo de imunização tão retardado, é difícil dizer quando as pessoas que não estão nos grupos de prioridade receberão a vacina. Tudo que nos resta é cuidar para não contrairmos o vírus, protegendo nós mesmos, e também quem está em nossa volta.

 

Ficha técnica:

Repórter: Teodoro Anjos

Edição: Teodoro Anjos

Publicação: Vítor Almeida

Professor responsável: Muriel Emídio Pessoa do Amaral

 

Média de imunização cresceu 108,5% de fevereiro para março, enquanto aumentou somente 27% em abril,  aponta “Vacinômetro” 

 

Ponta Grossa completou três meses de vacinação contra a Covid-19 em abril. De acordo com os dados do “Vacinômetro”, disponível no site da prefeitura, até o último dia do mês foram aplicadas 75.134 vacinas, 65,8% corresponde à primeira dose. A média de imunização teve aumento de 108,5% no mês de março em relação a fevereiro. Também subiu o número de pessoas vacinadas com a primeira dose: 123,4% a mais. Já a segunda dose teve aumento de 57,6% de aplicação entre os dois meses. Entretanto, de março para abril ocorreu uma desaceleração da média de aplicação. O número total cresceu somente 27%. No caso da primeira dose, houve um decréscimo de 26% de doses aplicadas em abril comparado a março. A respeito da segunda dose, o aumento foi de 285% de aplicação.

 Infográfico: Manuela Roque

 

Segundo o gestor em saúde Isaias Cantoia, o ritmo de vacinação em Ponta Grossa está lento. Ele explica que o principal empecilho para o aumento de doses aplicadas no município foi o despreparo do governo federal em relação à elaboração de um plano de imunização contra a Covid-19 para o país. “Em Ponta Grossa nós temos pessoas capacitadas e nós temos estrutura física para vacinação, mas por conta da pressão política, do meio empresarial e da sociedade, o governo federal começou somente agora a se mexer atrás de vacina, coisa que ele deveria ter pensado em julho do ano passado”, afirma. 

Isaias também destaca que não existe uma previsão de reposição das doses. O gestor ressalta que, ao passo que cheguem mais vacinas, o município tem total capacidade de aplicá-las com agilidade. “Ponta Grossa tem mais de 30 salas de vacina. Portanto, a gente teria condições de estar vacinando algo em torno de oito mil pessoas por dia, visto que em um único drive-in de vacinação na cidade foram vacinadas mais de duas mil pessoas.” explica.

Calendário de Vacinação

Outro ponto relembrado pelo gestor em saúde é que o calendário de vacinação dos municípios depende também do Instituto Butantã e da Fiocruz, os dois produtores de vacinas no Brasil. Isaias comenta que, mesmo com uma linha de produção diária, os esforços dos institutos não são suficientes para abastecer os mais de 5.000 municípios brasileiros de forma que a vacinação ocorra mais rapidamente, visto que a Fiocruz depende de insumos vindos de fora do país. Ele cita também a falta de transparência do governo federal a respeito dos contratos com outras fabricantes de vacinas no mundo como outro agravante: “A gente vê todos os dias autoridades nacionais dizendo que já tem contratos firmados com laboratórios que produzem vacinas, mas em sua maioria são contratos que ainda não foram efetivamente realizados”. 

Como divulgado na edição 216 do jornal Foca Livre, Ponta Grossa precisa vacinar cerca de 248 mil habitantes contra a Covid-19. A cidade recebeu 84.041 doses até o momento. Durante os três meses de vacinação, a média de imunização foi de 864 ponta-grossenses por dia. O gestor evidencia que a vacinação é a única saída para desafogar o colapso que se encontra o sistema de saúde da cidade. “Nós estamos vendo diariamente a saturação dos leitos hospitalares, o extremo cansaço dos profissionais de saúde e a falta de insumos. E embora o governo estadual consiga abrir novos leitos e compre mais respiradores, ainda sim não vai ter gente para atender a população.” 

Hospital Universitário Regional (HU)

A situação atual do Hospital Universitário é um exemplo. Segundo Teresinha Pelinski, a equipe de enfermagem que trabalha na ala destinada a pacientes com Covid-19 possui aproximadamente 50 profissionais, e seria necessário mais para atender a demanda diária. “Estamos há um ano sem formar um técnico em enfermagem na cidade, tendo em vista que esses profissionais precisam fazer estágios para sua capacitação e isto está suspenso devido à situação atual da doença”, relata. 

Isaias observa que o momento atual é pior do que o imaginado, devido à internação de uma parcela da mais jovem da população, a qual tem mais resistência física e permanece por um longo tempo no hospital. Além disso, as novas variantes do vírus encontradas no país são transmitidas com mais facilidade e tem um comportamento mais infeccioso no organismo humano. Ele também comenta que, mesmo recuperados da Covid-19, as pessoas que se contaminaram com vírus devem depender cada vez mais dos profissionais da saúde devido às sequelas em seus organismos, visto que a doença afeta a saúde de maneiras que ainda são desconhecidas pela ciência. 

O gestor ressalta que o colapso no sistema de saúde atual é um reflexo da despreocupação da sociedade no final do ano de 2020 e nos meses de férias: “Em janeiro e fevereiro, o pessoal achou que poderia viajar, festejar e se aglomerar, e hoje nós estamos pagando um preço muito caro em termos de vidas perdidas.” Ele frisa que os desentendimentos políticos no Brasil a respeito de como lidar com a pandemia também agravaram a situação da Covid-19 no país. “A gente percebe que tem uma boa parcela de políticos que defendem o isolamento social e a implantação de medidas mais restritivas, mas ainda tem uma outra parcela de líderes, encabeçados pelo próprio presidente da República, que nega tudo que está acontecendo.”

Desinformação

Devido ao perigo do processo de desinformação para a sociedade, Isaias entende que medidas mais drásticas precisam ser adotadas para que a população compreenda a gravidade do vírus. O isolamento social, o lockdown, e as medidas restritivas impostas em decretos são alguns exemplos citados pelo especialista. “O custo econômico se recupera ao longo do tempo. O custo sanitário não. Pessoas que morrem não voltarão”. 

Em janeiro, a prefeitura informou que a expectativa de término da vacinação dos grupos prioritários é até o mês de maio. Contudo, o Plano de Imunização Municipal contra a Covid-19 não esclarece quais são os grupos englobados nesta fase. O restante da população que pode receber a vacina deve levar, no mínimo, oito meses para ser vacinada. Até então, menores de 18 anos não estão sendo considerados nos grupos de vacinação. A reportagem entrou em contato com a Coordenadoria do Programa Municipal de Imunização a respeito de atualizações de datas para os grupos entre 18 e 50 anos no calendário vacinal contra a Covid-19, mas não obteve retorno.

 

Ficha Técnica

Repórter: Manuela Roque

Edição: Larissa Onorio

Publicação: Jessica Allana

Supervisão: Prof NRI I Marcos Zibordi e Rafael Kondlatsch e Textos II Kevin Kossar

Atendimentos atrasados podem provocar complicações na gestação

 

Ponta Grossa enfrenta alto número de gestantes à espera de consultas de pré-natal de alto risco e de nível intermediário. Os atendimentos que haviam sido suspensos devido ao afastamento dos três médicos obstetras, que são do grupo de risco, retornaram em 19 de Abril, com o agendamento das consultas. As 311 grávidas que aguardavam por atendimento de pré-natal de alto risco, foram agendadas.
De acordo com a Prefeitura Municipal de Ponta Grossa, estão marcadas 110 consultas por semana e pretende-se atender todas essas gestantes até o dia 07 de maio. Quanto à lista de espera de consultas de pré-natal intermediário geral, a fila foi de 537 gestantes, para 511 e na terceira semana 517. No intervalo de duas semana, foram atendidas 26 pacientes.
Segundo a Prefeitura, as gestantes que são classificadas como de alto risco, precisam passar por avaliação do obstetra para que, se confirmada a situação, o médico irá mudar o local do parto da grávida. Devido à pandemia, o contexto é atípico, houve vários afastamentos de profissionais, gerando a fila. A prefeitura ressaltou também que as especialidades são de responsabilidade do Estado, sendo o município um "colaborador". O Estado, neste período, ofertou poucas vagas, sendo um pouco mais de 40 entre os meses de março e abril.
De acordo com o médico obstetra Henrique Hoffmann, quando se identifica alguma anormalidade na evolução da gravidez ou mesmo alguma doença que acometa a mãe, o bebê ou ambos (como diabetes, pressão alta, malformações fetais), a gestação passa a ser classificada como de risco intermediário ou de alto risco, dependendo da gravidade dessas alterações.
São gestações que demandam maior atenção, pois há, estatisticamente, maiores chances de complicações identificáveis durante o pré-natal, parto ou pós-parto. Em alguns destes casos, a mulher vai precisar de atendimento médico e multiprofissional especializados (nutricionista, psicólogo, endocrinologista, educador físico, obstetra). Esses atendimentos devem ser encaminhados oportunamente pela equipe da Unidade de Saúde.

TEMPO DE ESPERA

Questionada em relação à situação das grávidas de alto risco à espera de atendimento, a prefeitura garantiu que toda gestante no início do seu pré-natal é vinculada ao Hospital Universitário Materno Infantil da Universidade Estadual de Ponta Grossa (HUMAI). Portanto, ela não fica desassistida, em caso de intercorrências. Além disso, quando está na rotina de pré-natal, deve ter todo o suporte nas Unidades de Saúde (UBS), onde atuam médicos obstetras que estão em home office.
Uma das preocupações que existe é acerca do tempo que estas gestantes ficam nesta lista de espera. Para o médico obstetra, essas filas impactam gravemente na qualidade do atendimento à mulher grávida e ao seu bebê. “No pré-natal existem prazos no que diz respeito à realização de exames e ao nascimento. A demora no atendimento pode atrasar a realização de exames fundamentais e mesmo atrasar o encaminhamento da gestante à atenção especializada, que é o diferencial entre desfechos positivos e negativos na gravidez”, afirma.
Segundo Hoffmann, durante o pré-natal diversas condições potencialmente graves podem ser identificadas, inclusive num momento anterior ao período em que afetem a boa evolução da gravidez. “Por exemplo: é fundamental que uma mulher hipertensa visite a equipe de saúde assiduamente para saber como vai o controle da sua pressão, se é preciso ou não prescrever alguma medicação, se a pressão alta de alguma maneira interferiu na gestação, se vai ser preciso adiantar o nascimento em decorrência dela, etc. Neste mesmo exemplo, se o feto nasce prematuro em decorrência de mau controle da pressão porque a paciente não teve sua medicação ajustada a tempo, a prematuridade é consequência direta do pré-natal insuficiente”, pontua.

CONTEXTO DOS DADOS

As listas com os dados de atendimento em saúde são divulgadas todas as quarta-feiras no site da Fundação Municipal de Saúde (FMS). A reportagem acompanhou a divulgação durante três semanas. Quanto ao histórico da lista de espera por consultas nas especialidades de pré-natal de alto risco e intermediário geral, no dia 14 de abril havia 537 grávidas à espera de consultas de pré-natal intermediário geral, e 331 à espera de consultas de pré-natal de alto risco.
Cinco dias depois, a lista de espera do pré-natal intermediário geral diminuiu para 511, tendo sido atendidas 26 gestantes. Já a fila por atendimento de pré-natal de alto risco estava zerada, cumprindo os agendamentos. Na última semana antes do fechamento do jornal na edição, final de Abril. A lista de espera do pré-natal intermediário geral aumentou para 517. E a fila do pré-natal de alto risco aumentou 6 gestantes. Em relação às listas de espera de outros meses, foram solicitadas à Prefeitura; porém, não obtivemos resposta.

Ficha Técnica

Repórter: Rafael Piotto
Editor de Texto: Prof. Marcos Zibordi
Supervisão: Rafael Kondlatsch, Marcos Zibordi e Kevin Kossar

Publicação: David Candido

Estudos da área são determinantes para combate à pandemia e ajudam na organização de estratégias de saúde pública

 

Pesquisadores ponta-grossenses participam de núcleo de pesquisa com foco em estudos de sequenciamento genético, que auxiliam em descobertas sobre o vírus Sars-CoV-2, da Covid-19, como a agressividade do patógeno no organismo dos seres humanos, quais células são afetadas e até a quantidade de proteína que o agente infeccioso rouba de cada indivíduo.

No Brasil, apenas a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Butantan produzem o imunizante

 

vacinacao coronavac

Coronavac, Astrazeneca e Pfizer são os imunizantes disponíveis no país. Foto: Tânia Rêgo / Arquivo Agência Brasil

 

“O Brasil tem condições de adquirir vacinas, não faltam recursos, eles apenas são mal administrados”, avalia o pesquisador da área de Farmácia, Arcélio Benetoli. Conforme o Plano Nacional de Imunização (PNI), mais de 70% da população nacional precisa ser vacinada para que o País esteja seguro novamente.

Confira o comentário em video de Robson Soares, e logo em seguida a versão em texto.

 

 

Pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostra que 50% dos profissionais da saúde atuantes no combate à Covid-19 sofrem com cargas de trabalho excessivas atribuídas durante a pandemia. As jornadas superam as convencionais 40 horas semanais. A mesma pesquisa indica que 95% dos trabalhadores tiveram alterações significativas tanto na profissão quanto na vida pessoal durante a pandemia

Toda essa sobrecarga traz sequelas psicológicas e comportamentais para os profissionais da linha de frente do atendimento à doença. Perturbações no sono, oscilações de humor, estresse, dificuldades de concentração e perda de satisfação com a própria carreira são algumas das queixas mais frequentes relatadas pelos profissionais na pesquisa. 

Todo esse problema reforça a importância de ações mais efetivas do poder público no enfrentamento da Covid-19. Medidas de prevenção que diminuam o ritmo da infecção podem ajudar a desafogar o atendimento hospitalar, de modo a evitar o colapso e contribuir para o bem-estar dos profissionais de saúde. Até agora, ao longo desse um ano de pandemia, Ponta Grossa contou com apenas dois isolamentos sociais mais rígidos.

A crise do sistema de saúde exige que o poder público, não somente da instância Municipal, mas também da administração Estadual e Federal, assuma o papel mais efetivo no controle de ações para evitar a infecção. Vacinar a população e impedir a circulação do vírus são caminhos eficientes tanto para desafogar o estresse do sistema de saúde quanto para evitar mortes desnecessárias de milhões de brasileiros. 

 

Ficha Técnica

Repórter: Robson Soares

Publicação: Kauana Neitzel

Supervisão: Manoel Moabis

 Trabalhadores da linha de frente contra a Covid-19 estão mais suscetíveis aos transtornos mentais relacionados ao trabalho

 

Conforme pesquisa realizada, em 2021, pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), 95% dos trabalhadores da saúde reconhecem alterações significativas tanto na profissão quanto na vida pessoal causadas pela Covid-19. Dados do estudo, também apontam que 50% desses profissionais identificam cargas de trabalho excessivas atribuídas durante a pandemia, com jornadas superiores a 40 horas semanais.

O clínico geral e nefrologista, Leandro Cancelli, reconhece essa realidade e conta que o aumento no volume de trabalho está entre as principais diferenças da rotina de trabalho anterior e pós-pandemia. “Em todas as frentes que eu atuo o volume de pacientes atendidos é absurdamente maior, a rotina de trabalho torna-se mais desgastante tanto no volume de demandas quanto no desfecho, porque muitos pacientes vão a óbito”, conta.

A técnica de enfermagem, Geliane Thaise Kintopp, expõe que, além do aumento nas demandas de trabalho, a preparação para exercer as atividades e cuidados sanitários correspondem às principais mudanças. “Antes havia menos itens de proteção e os funcionários da UTI tinham livre acesso ao hospital, agora para evitar a transmissão do vírus, só podem circular dentro da própria UTI, com os devidos paramentos”, diz.

Kintopp indica que a área da enfermagem, por conta do contexto pandêmico, passa uma sobrecarga de trabalho difícil de remediar. “Faltam funcionários, alguns estão afastados por Covid-19 e outros abandonaram a função justamente pela sobrecarga no serviço, o número de pacientes com intubação aumenta e demanda um esforço grande. São muitas drogas e sedações, isso gera um cansaço físico e mental”, narra.

Sobre o principal fator extenuante no trabalho, Cancelli situa o desfecho negativo do tratamento de pacientes infectados por Covid-19. “O maior agente de estresse está vinculado a quantidade de pacientes com um desenvolvimento ruim, muitos evoluem mal, apresentam quadros graves e morrem devido a doença”, afirma. A dificuldade de prestar atendimento a todos os pacientes também representa uma questão a ser levada em conta.

Estresse é um dos problemas da categoria

Diante do excesso de exigências no ambiente de trabalho, o estresse passa a acompanhar a rotina laboral. “Na enfermagem, seja UTI ou ala clínica, os médicos passam e mandam escolher ou simplesmente dizem ‘Esse paciente vai ficar e aquele vai’, nós precisamos acatar, obedecer a ordem porque o profissional que coordena disse, mas o pensamento acelera, o emocional fica abalado, é difícil”, fala Kintopp.

Sobre o impacto emocional provocado pelo contato direto com pacientes infectados por Covid-19, Cancelli conta que “trabalhar no internamento de filhos, mães e pais está entre as situações que mais afetam”. O médico afirma que “consegue lidar com as pressões do trabalho, mas não é inerte, sobretudo, ao conversar com familiares de pacientes” inseridos nessas circunstâncias.

Acerca disso, Kintopp destaca que “está ali para salvar vidas”, portanto trabalhar com pacientes que não reagem aos tratamentos disponíveis traz os maiores efeitos emocionais. Conforme a técnica de enfermagem, “o coração aperta ao encontrar a família da vítima no corredor do hospital, aos gritos e prantos”. Assim, saber “que o possível foi feito, mas o paciente não resistiu deixa o psicológico abalado”.

Além disso, dados do estudo realizado pela Fiocruz evidenciam que 15,8% dos trabalhadores da saúde desenvolveram perturbações do sono, 13,6% apresentam oscilações de humor frequentes, 11,7% exibem incapacidade de relaxar devido ao estresse, 9,2% relatam dificuldades de concentração ou pensamento lento, 9,1% expressam perda de satisfação na carreira ou vida e 8,3% apresentam mudanças na alimentação.

Devido à sobrecarga e pressão no ambiente de trabalho, os profissionais da linha de frente contra a Covid-19 observam impactos psicológicos e comportamentais que remetem a essa realidade. “Eu vejo colegas estressados e desgastados por falta de descanso, não têm finais de semana ou feriados, alguns estão responsáveis por até 30 pacientes, precisam passar a madrugada no trabalho para checar exames e atender o público”, relata Cancelli.

Problemas do próprio sistema de saúde também trazem impactos aos trabalhadores da área. “Não encontrar a medicação específica que o paciente precisa é frustrante para o profissional, isso acontece muito nos hospitais, por falta de determinada sedação usa-se outra, quando isso ocorre precisa diluir o produto várias vezes, isso torna o trabalho mais cansativo”, narra Kintopp.

A alta na taxa de ocupação dos leitos de UTIs e enfermarias representa uma questão problemática. Segundo o médico, “há um esforço para criar novas vagas, no entanto a abertura de novos leitos implica também a necessidade de mais profissionais”. Dessa maneira, “as equipes sabem o que deve ser feito, mas por falta de equipamentos, insumos e funcionários não conseguem fazer”, conta Cancelli.

Lutos mal resolvidos são fatores comuns para o desenvolvimento de transtornos mentais Sobre isso, Cancelli conta como os profissionais de linha de frente contra a Covid-19 lidam com a morte. “Quem trabalha com pacientes graves já está habituado a trabalhar essa questão mentalmente no trabalho para não levar problemas para casa, mas nunca é absoluto, perdi colegas médicos, fico assustado e sensibilizado”, destaca.

Questões relacionadas ao medo generalizado de contrair o vírus no ambiente de trabalho também fazem parte do cotidiano desses profissionais. “Quando nos paramentamos para atender pacientes infectados por Covid-19, temos o maior cuidado, não só pelo receio da própria contaminação, mas também por medo de levar o vírus para os filhos e esposa quando deixamos o hospital”, afirma Cancelli.

Ainda conforme pesquisa realizada pela Fiocruz, 43,2% dos profissionais de saúde relatam sentimentos de desproteção no trabalho de enfrentamento a Covid-19. Dentre esse total, 23% apontam como principal razão a falta, escassez ou inadequação do uso de EPIs. Sobre isso, 64% relataram a necessidade de improvisar equipamentos para exercer as atividades de trabalho.

De acordo com Ministério da Saúde, desde o início da pandemia, estão notificados 64.689 casos confirmados de Covid-19 em profissionais da saúde. Dentre esse conjunto, técnicos/auxiliares de enfermagem correspondem a maior parcela de infectados, com 19.067 registros. Na sequência, encontram-se enfermeiros, médicos, farmacêuticos e agentes comunitários de saúde com, nessa ordem, 10.935, 7.193, 3.420 e 3.272 registros.

Kintopp expõe o impacto psicológico pela morte de colegas de trabalho e relata algumas situações que presenciou. “No final do ano passado, duas colegas e eu contraímos Covid-19, mas infelizmente uma delas precisou ser entubada e faleceu, ela era uma pessoa ativa, deixou um menininho e esposo, é uma realidade que mexe com toda a equipe do hospital”, ressalta.

A enfermeira conta que acompanhar a intubação tanto de pacientes quanto de colegas de profissão traz um peso emocional muito grande. “Agora, presenciamos a luta de um colega do SAMU, internado por conta do vírus, ele é uma pessoa muito querida e humilde, o momento é triste, a gente sabe que depois que o paciente passa pela intubação, é só por um milagre de Deus, a gente chora muito”, relata.

ms covid 19 em profissionais da saúde

 

Separar o trabalho da vida pessoal está entre as preocupações dos profissionais da linha de frente

Para tentar minimizar a possibilidade de infectar familiares, Kintopp destaca os novos comportamentos adotados pelos profissionais da linha de frente. “É importante tomar um banho quando sai do serviço e outro quando chega em casa, deixamos as roupas e calçados usados no dia para fora, porque a família está ali dentro e não tem como saber em que condições você vai entrar em casa, o medo é inevitável”, diz Kintopp.

Sobre separar a vida pessoal e profissional, Cancelli ressalta que “toda pessoa que atua na área da saúde precisa ter empatia e estar sensível às circunstâncias dos pacientes, mas não pode absorver isso para si mesmo”. O médico afirma que “é possível separar as duas coisas, sobretudo, porque trabalhar essa questão representa uma condição importante para o correto exercício das atividades da profissão”.

Conforme Kintopp, os profissionais de saúde “precisam procurar maneiras para separar a realidade enfrentada no trabalho das questões da vida pessoal”, especialmente, no que diz respeito a Covid-19. A enfermeira conta que “embora seja possível separar as duas situações, não é possível esquecer a realidade encontrada nas UTIs”, dessa maneira, mesmo em casa, torna-se difícil evitar pensar sobre o trabalho.

Os profissionais de saúde, sobretudo, os atuantes na linha de frente contra a Covid-19, devem atentar para o próprio bem-estar mental. A respeito disso, Cancelli aponta uma negligência em relação a essa questão. “Isso deve ser trabalhado, mas muitas vezes não acontece, sobretudo, por vontade própria, faz falta uma assistência psicológica disponibilizada pelos serviços de saúde aos trabalhadores que atuam na área”, diz.

Algumas organizações de saúde têm apoio emocional disponível aos funcionários, mas Kintopp ressalta que não são todas. “Seja médico, enfermeiro, técnico de enfermagem ou zelador, a saúde mental fica abalada, muitos hospitais não têm amparo nesse sentido, precisamos buscar suporte psicológico dentro nós mesmos para podermos encarar a nossa realidade”, afirma.

Transtornos mentais ocupacionais podem surgir de maneiras diferentes em cada sujeito

A psicóloga, Bárbara do Carmo Noviski Gonçalves, explica que os transtornos mentais desencadeados pelo trabalho são diversificados, embora ligados por fatores comuns. "Existem vários tipos de desarranjos e os sintomas surgem de diferentes maneiras em cada sujeito, mas o sofrimento mental em torno de atividades laborais representa o fio que une essas questões", ressalta.

A também psicóloga Thais Alves, expõe as causas mais recorrentes de transtornos mentais em trabalhadores. “Em geral, jornadas de trabalho extenuantes somadas às exigências profissionais desmedidas representam questões corriqueiras nesses casos, mas há outros pontos, a falta de reconhecimento na atividade exercida pelo sujeito, por exemplo, também mexe muito com a condição emocional”, esclarece.

Os profissionais da área da saúde, em especial indivíduos que trabalham na linha de frente contra a doença, têm uma predisposição maior ao desenvolvimento de transtornos mentais provocados pelo trabalho. “Há um nível muito alto de risco em que os profissionais da linha de frente estão submetidos, essa periculosidade ligada ao trabalho diário traz problematizações para a saúde mental”, afirma Gonçalves.

Durante a pandemia, mesmo os indivíduos que não fazem parte da linha de frente contra o vírus já estão mais propensos a desenvolver transtornos mentais. “Tenho pacientes com profissões em outras áreas que também apresentam quadros, estamos diante de uma situação sem controle, muitas vezes sequer conseguimos minimizar a questão da transmissão da doença, isso traz implicações”, relata Alves.

No entanto, conforme explica Alves, “por ocuparem uma posição vulnerável, sobretudo, a propagação do vírus, existe uma pressão psicológica mais forte sobre os profissionais da linha de frente”. Nesses casos, a possibilidade de contrair Covid-19 e transmitir para familiares, amigos, colegas de trabalho e pacientes com outros problemas de saúde representa um fator comum para o desenvolvimento de transtornos mentais.

Além disso, dificuldades e impossibilidades de trabalhar com as situações impostas pelo contexto pandêmico também representam fatores. “Muitos profissionais precisam estender a jornada de trabalho, há também a escassez de equipamentos de proteção individual e problemas na infraestrutura dos atendimentos, isso gera sentimentos de desesperança, irritabilidade e solidão”, expõe Alves.

No que diz respeito à identificação das doenças mentais laborais, Alves indica que “embora dependa muito do tipo de doença, os transtornos podem ser observados no comportamento dos sujeitos”. Segundo a psicóloga, alguns indícios podem ser tanto físicos quanto mentais. Dentre esses, estão isolamento, tristeza, perda de apetite, estresse, insônia, tremores, ansiedade, palpitação no coração e fome excessiva.

Quadros depressivos estão no conjunto de transtornos mentais desencadeados pelo trabalho. “A depressão surge por fatores genéticos ou externos, em todo caso, o ambiente de trabalho pode representar um gatilho para a doença, para os profissionais da linha de frente contra a Covid-19, o distanciamento social, a falta de tempo e o luto são exemplos de situações laborais nesse sentido”, destaca Alves.

Segundo a psicóloga Gonçalves, nos profissionais da linha de frente, a ansiedade acontece na mesma proporção que quadros depressivos. Os sintomas desse transtorno apresentam sintomas psíquicos e físicos. “A ansiedade representa um sentimento, mas a partir de um certo ponto, pode passar a ser um transtorno mental, os sintomas mais recorrentes nos indivíduos são insônia, inquietação e irritabilidade”, explica.

Diante das situações encontradas no trabalho, profissionais de saúde podem desenvolver estresse pós-traumático. Segundo Alves,“o transtorno faz parte da ansiedade e surge quando o indivíduo passa por situações com forte impacto psicológico”. Conforme a psicóloga, “os profissionais da linha de frente vivenciam isso com mais frequência e impotentes diante de certas ocorrências passam a desenvolver a doença”.

Outro transtorno é a síndrome de Burnout, transtorno relacionado ao esgotamento causado pelo trabalho. “Trata-se de um desprazer no trabalho, devido às condições enfrentadas pelo sujeito, entre os indícios que antecedem a doença estão cansaço físico e mental, estresse, problemas na alimentação e sono”, ressalta Gonçalves. A doença incide, sobretudo, em profissionais que trabalham sob pressão.

Sobre como organizações podem contribuir para evitar transtornos mentais nos funcionários, Alves destaca que nos hospitais “garantir que os profissionais de saúde tenham um tempo de descanso entre plantões e disponham de alimentação adequada dentro do próprio ambiente de trabalho” são medidas. Além disso, “ter acompanhamento psicológico no ambiente de trabalho é importante para sanar esses casos”.

 

Ficha Técnica: 

Repórter: Robson Soares

Publicação: Alex Marques

Supervisão: Vinicius Biazotti